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Poesia |
Antes que seja tarde demais
(um apelo aos que tiverem ouvidos)
O mato é como sempre foi
A melhor escola para nossos filhos
A palmeira além de palmito piso e ripa
Dá frutos excelentes e nisto ela é phd
Dá buriti, açaí, bacaba, pataua, tucumã, pupunha...
Elas abrem suas folhas para a luz do sol
Que junto à terra na raiz serve-lhe de alimento
Dá cachos em abundância
Conforme seus ciclos e suas normas
As condições de clima e solo podemos fornecer
Podemos confiar na planta que ela dá
Suas pencas de vinho, tetas de leite roxo
Provem com alegria e satisfação
Temos de aprender com as arvores
A ficar felizes quando fonte
Quem usufrui dela são as aves
A astúcia é nossa asa
Por isto também desfrutamos como os macacos
Subir lá no alto para ordenhar o milagre
E só em caso de muita abundância
Ciente na sabedoria
Cortar um ser assim tão bom
Quando vamos construir nossas casas
Quando precisamos prá comer e não pra vender
E nossos filhos precisam saber também
Entrar com as palmeiras em seus sonhos
Para brincarem de paisagistas no jardim interinp
Onde oniscientes habitamos o sol
Há na cabeça junto ao miolo
Um lindo quintal ou uma caverna
Ou um palácio se preferirmos
É o único lugar realmente seguro
Ali podemos ficar tranqüilos
Lembremos a castanheira, a araucária, beribá, cupu
Guabiroba, caju, goiaba, abacaxi, maracujá
Cascas, raízes, seivas, cipós
Erva mate, tabaco, macaxeira, gerimum, amendoim,
batata doce
Milho
As coisas de troca elementar e essencial
Irmãs que nos sustentam nesta passagem
Vegetais o tempo todo a nos auxiliar
Produzem o oxigênio nas algas, nas folhas
Do alento a doar-nos vida
Desesperança
Desesperança
Medo
Ensinaram o ficar calado
O não lutar solitário
Contra o instinto
Alucinado da luta
As armas e as prisões
Animais castrados
Bebes de proveta
Criatividade atrofiada
Moral do trabalho
Escravidão paga
Cravos da roseta
Azia aérea
Assim não há como haver
Sentido nem conteúdo
Votar no diabo ou nestes candidatos
A nos governar, dá no mesmo
O próprio não seria tão diabólico
Sabemos quem sempre quebra a cara
E mais uma vez sequer levantaremos um dedo
Para nos defendermos destes que sem titubear
Sacrificam crianças nos altares da fome
Agora, quando apontam o buraco
Corremos pra ele como se fosse a coisa mais certa
Do mundo a se fazer
Encontrados ou perdidos
Encontrados ou perdidos
Nos encontramos neste mundo
Na maior parte das vezes desconexos
Da ordem natural
Só na perdição do amor finda-se a busca
Fica claro ali o estarmos à deriva
Num eterno entroncamento
E se incomoda a agonia no silêncio e solidão
Continuarei em velado labor
Chutando de bico
Cada vez mais forte
No calcanhar de Aquiles da engenhoca
Tão amada dizem as más línguas
Lembremos o passado
Lembremos o passado
Sempre–sempre repassado
Repensado como eco
Que o presente eterno
Depende do vigor da memória
Interno sempiterno
Quando teve início a abertura?
Afrouxaram os grilhões da ditadura
Um povo pra saber de si precisa aprender
Tudo quanto vale a liberdade
Hora de passear no inferno
Se inferno nele esta o erro
Nele esta a cura
Hora de seguir ao céu
Se céu nele esta curado
Secura é sertão, pampa, mata
Ermo onde somos desertos
Somos nós mesmos e uma nação
Quando escolhemos àquele que nos ia governar?
Aquele a quem todos queriam
O velho mineiro assassinado
Por aqueles que não largam o osso
Hora de mergulhar neste fosso
Para ser fortes tomar o sangue grosso
Do salvador no vinho secreto
Abramos o inquérito
Riscar os decretos decrépitos
Seguir à risca a constituição
Dos dois primeiros mandamentos
Que bastam e arrebatam
E arrebentam qualquer grade
Ascendem qualquer coração
Se abrimos aberto está
Chamemos às portas da verdade
Pra ver se nos deixam entrar
As chaves são as palavras certas
Dirigentes da intenção
A mão na maçaneta é a entonação, a vibração
A reverberação ressonante, a devoção
Sem trégua questionar a regra
Quem tem fé não se entrega
Prega os próprios pés na cruz
E onde brotaria o pus
Resplandece em luz
Suspiro, sopro, assovio, susss...
A raiz esta no negro, no índio
Mestiço, caboclo, mameluco
Feijoada completa, somos todas as raças
Latim com tupi
Cristo-Tupã
Cisne no tucupi
Modinha, lundu, carimbó
Baião, choro e rasqueado
Os cantos verdadeiros
De nossas gentes verdadeiras
De nossas aves a cada tansmontar
Evoco o jeitinho de lidar
Driblar na malandragem
Sem que a bola saia do lugar
Bem vindos os brasileiros de alma
Todos que queiram se abrasileirar
Nossa pátria é teta farta
O único ouro real na terra
É ar puro, solo fértil, água de beber camarada
Não vamos nos submeter
Mas esta tudo certo
Tudo sempre como deus quer
E o que ele quer é transformação
Caiu a mascara do pateta
O mundo cansou do papelão
Trocar o disco, mudar a dança
Quem somos nós?
O que faço a respeito próprio
Diz respeito a tudo que somos
Não somos mais que gente
Querendo sentir sempre mais
Ser um consigo para ser um só
Com os demais que não serão mais demais
Atados na corrente do amor
A única que liberta
Aberta, correta meta
Seta siga nesta direção encantada
Cheguem as maravilhas deste alívio
A seiva escalando-nos as vértebras
As flores com mais pétalas
Nas costas das folhas
Um canto de silêncio vem sombrear as almas
Vem desvelar o clarão
Um espírito de serenidade
Benção amazônica
Herança ancestral
Aparentemente há muitas sendas para o Éden
Cada mito leva um nome diferente
Mesmo com o mesmo fito
Fito a madrugada bonita
Mesmo fria, úmida, nublada
Mesmo sem lua
Mesmo escura a madrugada
Vamos sorrir na desgraça
Que na graça estaremos graves
Riso consciencioso
Com muito discernimento e ação
Rédeas curtas, arredios sem moleza
E que nada fique pra amanhã
Afinal herdamos a espada de fogo
Celebremos o pão multiplicado
Carne do milagreiro regozijado em no-la-dar
Osíris, Orfeu
Façamos o sacrifício diário
De morrer e renascer pela vida
Sem medo da morte
Encarando a temerosa sorte
Já que mostramos as cartas
Contemos todas antes de guardar o baralho
Pra ver se nada ficou escondido na manga
Encerrado esta, o jogo de garimpeiro
De revolver cavando, peneirando
Atrás da pedra preciosa
Sempre procurando, buscando
Devolvamos à terra
O que dela é
Porque tenho de pensar-me, é castigo?
Porque tenho de pensar-me, é castigo?
Lembrar das coisas que disse
E me perguntar porque não fiquei com o bico fechado
Sentir vergonha minha diante de mim
Desconhecer-me no ato
E depois na hora do dar-se conta
Preferir que nunca me desse conta de porcaria alguma
As pessoas que admiro em suas virtudes
Que sou incapaz de imitar
Se tivesse um tesouro qualquer
Daria-o por esquecer-me
O dia em que desaparecer
Terei me encontrado
Estarei plantando batatas
O dia em que desaparecer
Saibam que me encontrei
Estarei plantando batatas
Nada faço
Nada faço como sempre
E assim será
Arvorem-se a juizes
Os baluartes da moral
A peçonha da zombaria
Daqueles que consideram-se o que há de melhor
Nada tenho desde o nascimento
E nada terei
O verbo ter
Normalmente compreendido
É um tremendo equívoco
Nunca fui um infelizmente
Parcela integrante e ativa
Meio deslocado
Fui mais um
A não chegar nem perto
De saber quem ou o que sou
Nada fiz por não encontrar
O que a meu ver
Valesse a pena ser feito
Mas agente vai se vacinando
E a vida vai virando um troço
Cada vez mais interessante
Tornar
Tornar-me um homem sadio
Não um homem comum e doente
Poderia dançar com os pés atrás da cabeça
Trabalhar por prazer, estudar, ir em festas
Enfim ser alguém explicitamente especial
Abandonar esta esquisitice onde calei-me a vida toda
Pensam que saí de trás destas muralhas
Ilusão, posso enganar a todos menos a mim
Pus um pé pra fora do portão e dei uma olhada
E agora estou aqui pensando se dou o outro passo
Mergulhar de cabeça
Se algo me ferir poderei voltar acossado
Para lapidar no gelo escuro os hinos da angústia
Saberei cantar o prazer
Com tanta potência quanto abafo a dor?
Encima do muro entre eu mesmo e o mundo
- Alguém me empurre!
O menino perguntou ao velho:
O menino perguntou ao velho:
-Por que não beija a velha como o jovem à menina?
O velho esta cansado de sua cara
Nos olhos e na cara enrugada da velha
Que já não agüenta mais a cara da morte
O menino não entendeu
O adulto intuiu e gemeu calado
O adulto perguntou ao velho
Por que o prato tinha sempre que estar
Exatamente naquele lugar e os palitos acolá?
O velho disse que tinha que ser assim por que tinha e pronto
O adulto não entendeu
O menino gostou da resposta e sorriu
Quiseram saber porque o velho nunca sabia onde
deixava as coisas
E por que diabos deveria eu saber onde estão as coisas?
Ambos não entenderam
Mas tiveram a quase impressão
De que a velhice é a infância duma outra vida
Cerra-se a cortina
Cerra-se a cortina, umbral
Sonho derradeiro, sem sono mais
(ou dum portal o abrir-se)
Evóco-vos tranquilo
Óh aves invisíveis do dia-a-dia
Irmandade silenciosa
Deixai erguer-se a flama
A compreensão descarnada
Estando em carne viva arde
-- "O que acontece? por onde ir?"
Nunca se sabe, alegre nem triste, isto
A luz vela e às vezes até
Faz crer um trilho
Mas é o caminho da água
Vai da fonte pro mar
Ô verãozinho pra chover!
Pra compensar o inverno seco
Que seria o sinal do fim
Manda São Pedro! to te escutando
-- "Dê-me a mão, não sei nadar!”
A pensar ser o que já não se é
Ver que não se é o que sempre acreditara ter sido
Almejar permanência após romper-se o elo
-- "Que fazer dos desejos? onde o prazer? "
Deixai nos ossos as emoções
Que lhe digo se há janelas
Onde os degrais do áureo desvão
Sonetos
As almas aladas anunciam-te
As mesmas que cantam tua nênia
Até aqui és irmã gêmea
Do teu reverso claro e brilhante
Na fala brasileira és fêmea
A flauta do urutau te encante
Para embriagar este bacante
Argênteo luar, amante me`a
De grave insônia és o berço
Falso escape deste labirinto
Refresca-me tua aragem fria
Quanto mais neste abismo desço
Mais domina-me sombrio instinto
De temer a claridade do dia
Logo atravessar a estrutura
Descer degraus até a enxovia
Canta subterrânea cotovia
Versos duma secreta escritura
Alta via verticalmente ínvia
Medir nossa terrível quadratura
Formão devorador da escultura
Aos golpes que o porrete envia
Desprezo à orgia sedutora
Não tarda afundar este navio
Esta desviadora geringonça
Voa a dentadura que estoura
Acendo na peruca o pavio
Cutuco com vara curta a onça
Onde a força mesma jaz secreta e calma
Onde a força mesma jaz secreta e calma
Impulso do roto trecheiro de vila em vila
Atrás de mais estrada, uma cana e seu balde de churume
A tal da gravidade faz o igarapé salgar
O calor potencia do sol esconde outros sóis
Nuvens a mover os ventos, a lua é o yô-yô do mar
Deve haver uma grota imemorial com esse combustível etéreo
Este outro diamante, um indestrutível
Esse embalar dum trato com a foice
Com Pã e toda cambada do Olimpo
Guerra, amor, loucura, fúrias, musas
O uivo do lobo é o gozo do gemido na presa
Perscrutar de tocaia, perseguir, abater, matar
Engendrar a semente no chão e cuidar
Esse sentar-se pra pitar, este pacto
O milho vindo a prole se indo
Pelo mundo afora com as próprias pernas
E acua-se o medo temendo tanto ímpeto
Foge o banzo diante da alva de áfrica
Seu lugar na tribo e na savana, a liberdade de lutar entre leões
O planeta é plano desde quando ganhamos asas
Senta a pua! Avião avua, a cordilheira é o ninho
Do pássaro imenso que voa alto, voa com ardor, com motor
Mergulhar em azul de ceu e mar, em verde de floresta perder-se
À mercê da sussuarana e da sucurí, em picumã de tempesta grossa
E gruta funda, onde as inscrições ancestrais
Nesse molho, essa caldeira borbulhante
Deita lenha, gira a pá, tempera
Da agonia de morrer-se a cada instante em que se esta só demais
Do desespero de não se tocar carne palpitante
E suar e morder e perpetrar
O feijão ha muito plantado um dia o orvalho germina
Vargem madroça, eira, manguá, crivo, panela, peido
O destino-intestino inefável do grão de regalo da terra
Uma mãe com leite, porra, lama, sangue e lágrimas
Com todo amor e carinho no final das contas
Devora e digere cada filha, cada filho
E tanta gente nasce e sente o bafo do verão
Os braços são os tentáculos do polvo, da lula
Os galhos do gapuvuru, as folhas da embaúba as mãos
O pé é asa de toguató e urubú
Boca poço do morro, sumidouro da lagoa
Frutas comidas pelo tempo, bicho engraçado
Cria prá si um oleiro olheiro, desvairada fantasia da imaginação
Castelo de pedra, fossa e muralha
Alí minha fábula de encanto, com a Medusa e a Cuca no calabouço
Pra atingir o tesouro labirinto com touro
Xô tédio nesta esquizofrenia saudável
Aldeões do queijo e do pão
Donde emana o êxtase do vinho jamais pisado?
A casa caiu
Era o tresouro mais valiouso
Ouro , platina , diamante , é pouco !
Pensava que era o amor
Que fosse rabicho , encanto !
Nada vale mais
Cavalo de pomba gira
Do lado de baixo do equador
Era uma placa fina
Minha mão segurava dum lado
Outra segurava do outro
Est`outra mão largou de mão
Pra acender um cigarro ou sei lá
Foi-se pro charco tudo que mais prezava
Desprezo ou menosprezo
Crassa desconsideração
De graça meu tudo afundou
Impio coração , casta leprosa
Inapta ao melhor
Em nome do trocadilho
Nervos putrefeitos em formol
Excremento e enchofre no meu peito
No rosto atônito
Um arrôto seguido de vômito banal
Karai Mirim
A criança
A criança faz da mao um ninho
Tem ali um ovo de vidro
Mas pequeno e redondo
Castanha pupila cristalina
A bolinha de gude ele mostra
Qual seus olhos transparentes ela transluz
Com fios de capim doirado
Com um solzinho brilhando no meio
Ou ele traz no rosto duas bolinhas mais
Ou traz na palma da mao
Um terceiro olho
O olhar com que enfatiza o brinquedo
Faz dos tres um
Tem uma fila de moleques
Cada um amostra a sua
Galhofeiros , miudos
Karai Mirim
Aos trancos
Aos trancos ( fura o pneu )
E Barrancos ( caio eu )
é a saga de Dom Quixote
O Pancho é de palha
O cavalo tem rodas
Agora tem trem pra tentar fugir ao calor , à estrada
Mas nada , nao ha como escapar
Dali vira o delirio
Do sol
Na planicie extensa de parreirais
Uma bela chaqualhada
Pra assenta os sedimentos do solo
Baixar a altura , endurecer o chao
Com longitudes e vinhos
Barbaro sem fogo , sem lingua nem toca
Caçando diariamente tudo e nada
Sem caça , com fome , sem Dulcineias
Nem agua nem cao
Exposto a mouros , bascos e javalis
à merce das mares e do verao
Cada dia mais pobre , a cabeça mais fraca
O corpo mais cansado
Quisera ouvesse outra vida
( e nela um reino do ceu qualquer )
Karai Mirim
Nomade
Nomade , malemau consigo comunicar-me c'oa gente
Palhaço maltrapilho , uns riem , outros olham desconfiados
Os pirralhos tem olhar de vaca , fascinados
Segue o bufao na bicicleta velha
Agora o espantalhinho é Virgilio
As bermudas rasgaram na bunda
As camisas encardidas , manchadas de vinho e graxa
Escondendo-se pra dormir nos esconsos nos fins de tarde
Sujo da poeira grudada no suor seboso
Sempre acuado pela agressividade do receio
Da maioria incapaz de computar a estranha figura
Sigo na apaziguada raiva duma solidao cada vez mais solida
Cada dia muito mais selvagem
Perdendo a linguagem , oque afasta o mundo
Quando sinto um pé atras saio fulo , saio batido
Cada vez menos travo contato com as pessoas
Nao consigo mais sentar num bar e tomar um café
Pedalo , rumino paisagens
Karai Mirim
Taça de fino cristal
Os olhos nao me repreendam
O sentimento nao estranhe nem receie
Nao sois menos esquisitos saibam
As mentes nao condenem a persona
O seio esta em carne viva bucho aberto
Nao sejam varejeiras a colocar ovos
Uma bicheira seria fatal
Os nervos mau encapados
Dao curto circuito às vezes
A mera tirania sutil das emoçoes
Arranha com outro espinho esta carne
Oh gatos , cuidai vossas unhas !
Perdi a força bruta , a guarda caiu
Nao adianta meter a testa , tento esquivar
Salto , voo , deslizo , razante de ave
Estou a ouvidar o veneno da cobra
Deixem-me ser nu , sujo , à toa
Ja nao alcanço mais em cima do armario
Karai Mirim
O segundo tempo não importa , trata-se do assassinato dum velho mineiro pela corja de coronéis vampiros
Prorrogação
( vem num crescendo o som da bateria duma escola de samba , no coro os vates pegam em surdos , tambores e tamborins , apitos... )
Surge numa tela ao fundo a Liberdade ( Aquela mulata do tapa sexo que ninguem viu )
Voam confétes e serpentinas , todos dão um grito em uníssono : Viva à Liberdade !
( ela entra rebolando sua abundância a ofender às Deusinhas do Olimpo )
Apologia à mulata melancia
Na péle adivinha-se o cacau e o melado
Doçura e amargor em seios fartos e férteis
Trazes neles o leite da vida , ambrosia do amor
Quem não viu no carneval de 2008 ?
Se havia ou não tapa sexo foda-se
Imoral é tapar o sítio sagrado
Receptaculo do semen , urna da criação
Onde opera a natureza o maior milagre
No papel de india cabocla negra lisinha
Tua nudez foi castigada como vaticinara o grande dramaturgo
Morena tentação por quem se perdem as almas dos castos
Tua miragem a sambar na avenida
Teu brilho de purpurina e suor
O azeite e o sal a temperar teu corpo
Nepente universal tua saliva , teu gozo
Acendes sim o desejo , o mais chão
Pródigas nádegas num quadril de pura generosidade
Só lhe ví poucos segundos na tvlizão a rebolar tanta graça
E rendo-lhe esta homenagem de santa admiração
Vasculha-se tanto lodo e lama pra se encontrar tão raro acepipe
- " A rranjei um freseado , que já guardo decorado , para quando te encontrar ,
Como é que voe se chama , quando é que voce me ama , onde nós vamos morar "
Noel
Cordél de Severino
De febre fort`altardo
Balanga a rede cai os pau
A clareirabre num brado
Enxofre , salitre e sal
Morno sangue mergulhado
Retiescurumbral
Por berço u`a negra nau
Lepra , colera , escravidão
Salvas estão nossas almas
Bola na bucha do canhão
Ululante miséria
Abre-se ao mar o alçapão
Da doce cana o fogo
D`ardente tibirita
Máquina dinguinorança
Que nos impossibilita
Prende mais que corrente
Est`agua maladicta
Sempre apretando o cabresto
Espetaculo da chibata
Sem fala , livro , história
Sem chão sem teto nem mata
Basta a pestilencia moral
De dentro nos arrebata
Vamos todos passear
Neste auriverde parque
A carne de cada um
No seco sertão é charque
Pra parar na prateleira
Poque se és "mau " , marque!
Merreca de troco da mermo
Só pro bicho e cachaça
Meus filhos de mãe solteira
A brincar de ladrão na praça
Chega os puliça em cima
Ai meu deus que desgraça
Por tudo é só trupeço
Tapa supapo e repelão
Na sopa de terra e chuva
Pedaço de préda é pão
Ganha-se a vagar por aí
Catando lata e papelão
Sózinhos sempre mais e mais
Por companhia o porronca
A velha buchuda amargou
Pariu e segurou a bronca
Alguém quebrou o silêncio ?
É a barriga que ronca
Tanto o pai como o avô
O bisavo foi peão tambem
De rasto , de pé , de mula
Partimos todos pr`além
Ouví este severo hino
Livrai-nos do mel amém
Apita o juiz , fim de jogo
Karai i
Putakeupariu!
Não é minha mais !
Das vozes na cozinha na noite passada
Que tua mãe já escutara
Sangue de Jesus trei veis
É pobrema né meu anjo ?
Gente morta cum coisa pra dizer
Agora soluçamos nossa separação
Se eu ficasse mais um minuto te trazia comigo
Em Caceres arrependido tu me dói tanto
Ficaste triste quando tua vó contou
Que o pai dela cigano pegou tua bisa no laço
Após matar a aldeia dela toda
Isso lá pra Bahia , eram como , os cambuís ?
Nossa historia é uma desgraça só minha neguinha
A cama pulguenta onde nos amamos
Sem porcaria de camisinha porra nenhuma !
Agente foi cum a cara um do outro
Num foi não ?
Dio boia ! sou mesmo um pária
Como o primeiro filho da puta com quem foste morar
Aos teus dezessete criança e começaste a apanhar muito
E era violentada todo santo dia
Não fugias com medo do canalha
Que comprou uma arma pra te ameaçar
Te desacordava na porrada antes de sair
E te deixava trancada até ele voltar
Até o dia em que fugiste com outro
E o animal pedindo pra voltar pra ele
Te deu uns derradeiros murros que te racharam o crânio
Depois tu deu pra ter crise de quebrar tudo
A psiquiatra disse que tu é esquisofrênica !
Tua saga nos hospícios , os tarja preta pra amansar cavalo
A grvidez do tupi-guaraní teu salvador
Gravidez de alto risco, as ameaças do ex durante a gestação
O parto prematuro do teu filho Elvis
Que viveu quase dois meses , tua laqueadura
Voce pulou mas teu irmão teve tempo de te segurar
Teu cabelo joãozinho com manchas rochas
Bem indiazinha , as unhas pintadas
Todo teu tesão , teu carinho , com purpurina
Não imaginas o quanto me tentou
Pra te levar mais eu
Se tivesses me pedido eu não conseguia negar
Destas covardias que agente faz na vida
E jamais consegue se perdoar
E fico mais magoado ainda comigo
Foram só duas noites caboclinha
Rodei duzentos km e não és minha mais
Noeminha minha Cy
Esse saber oque seríamos juntos
É jararaca no garrão , papagaio na jugular
Mas quem sabe um cadinho de sofrimento
Não seja antídoto pros males
Que um mundo de sofrimento nos traz
( Tem essa de ilusão não ! )
Às vezes parece que tem até deus
Botando nói frente a frente
E que tem coisa ruim tomem
Me botando pra correr assim
Sozinho , sem em nem bem
Karai Mirim
"Por tras de los silencios quedará
Y no mas , nunca mas , volverá"
El Condor Passa
Pronde foste ninfa querida ?
Se o amor é tão grande cumé que cabe tanto banzo
Num tekoa tão pequeno , pruque tantos desencontros ao coração ?
Segue nas aguas do Renno um canto de delírio
Alva Yara dos raios de sol no trigo maduro
Nunca almejaste sequer uma palha do terivel monte de feno
Sonhas-te minha casa soterrada e tiveste medo
É que vinhas no sopro de Yansã e já me enchergaste de tua estrela
Pequena princesa d`além mar , nossa terra sem males
Cada semente que plantei não há como impedir que cresça
Plante aí umas rocinhas pra quando for minha vez comer um milho perfeito
Quero abraçar-te e eres véus , vou beijar-te e tua boca é neblina
Vês quantas santinhas já tenho a desviar meus pés dos tocos de tantas travessuras ?
A novilha sem mácula logo é segada , cedo o gadanho ceifa-lhe a luz
Duns oio curiscante , claros sem fundura
Amante das almas vem o machado de Xangô e termina de picotar-me o peito
Lisinha a pele , a carne fofa e quente , dentes de via-láctea , descalços os pés
Sobre o asfalto de Bonn , os paralelepípedos de Cuzco
As areias do desterro , os pirilampos das contelações
Ré a vida não dá
qui - lo mas Hades não o quís
em que vai dar tudo isto meu Deus ?
E se tivesse um deus deixava isso assim é ?
Se ele sabe oque faz é um cabra muito sem piedade ( corno fio d´ua égua )
( Cronos ta no Tartaro e o senhor trate de abrir o olho degranhento ! )
Dizem ainda que mau é o concorrente
( mas o chofér num teve curpa né Iracema )
A pena de Prometeu era sofrer e não morrer , me cabe latejar até espocar as chagas
Quando tomo a rasteira não tenho ombro nem bengala
Na cara boa pra bofetada a arcaria cada vez mais banguéla
Diz aí assum preto , oque repetes na meia noite que apavora
Se ao menos a passarada se invernasse nos ninhos
Gorgeiam sua fésta , não sabem de porra nenhuma ou sabem demais
Oque daria no mesmo , mas num é nada disso
São elas representação de Hermes , a suástica pré-histórica das alucinações
Exú das encruzilhadas , o canto sibilante é o aviso
O grito , o choro , o signo d´algúrio
Do desesperado perdido na mata e de quem desesperadamente o busca
Primavera , lua nova desgraça crescente
É seu Camões , o dia em que nascemos morra e pereça
A minha ninfa tão asinha também não posso ver , nem um bréve engano...
Tão cedo de cá me leve a ver-te... Antes que Amor me mate...
Para isso só nasci... ecos ardem doídos demais
Neike Tupã qweru ! chora o céu , rega a terra tão amada
Que dá de cumê e come nóis , o mal prevalece , um mar funesto
Gela o sangue , o pressentimento foi o pesadelo que me contou
Disseste preu tomar cuidado e nem desconfiávamos ser prá ti o sinal
Fui coberto de barro , metade de mim , ostra vez puxam o tapete
Fica proutra vida , dern`Ares e Afrodite já foram tantas
Quando foste a mais sábia entre os Incas ou quando fui lhe resgatar
E desgraçadamente olhei pra trás , nas lutas contra a nobreza e as oligarquias
É repregar a velha ruta , rôta de tantas rotas , dum vaguear sem rumo
Do sentimento mais puro , alargar a passada ( quando descansaremos juntos ? )
A pontada aguda só o canto expia , expira a buscar passarinha tua flauta encantada
No Andes mais proxima ao firmamento , no féretro sobre teu seio meu retrato
Né neguinha ?
Ni nguem te substitui
A éve´i
Karai Mirim-mirim-mirim...
Charada da vida em nada engraçada, o que daqui se leva?
Responda-me o da espada, o homem tem de saber quem é
Por trás do que se apresenta e só pode provar que adivinhou
Se agir de acordo com a revelação que é uma só
Dividir-se para ser um com dois, três, quatro ou o mundo todo
Egoísmo puro não abre brecha para o melhor
Criança é amada pelo que é, depois transforma-se em ação
E continua sendo amado pelo que é no que faz de si
E raros são os que são amados por só fazerem aquilo que são
E se somos amados é pelo que somos do que fazemos de nós
A um só tempo belo e triste, com tanta imperfeição....
Faz parecer a poesia que a falha é dos olhos
Precisa doce nenhum pra disfarçar o amargor
Agente foge, se refugia na labuta, mergulha na cachaça
Na ironia deleita-nos a infelicidade, afinal há coisas maiores
E mais importantes que alegria e tristeza
Ele não salvou ninguém, não sentou em trono nenhum
Nem neste mundo nem em qualquer outro
Desfez os milagres e foi quase que só corpo
Homem da terra sinucado pela cana, saída devoradora da solidão
Que a união do corpo não pode acalentar, homem do chão
De coração manso, no sofrimento traçado no rosto
A dor acumulada de mil gerações te deixa de canto
Ao pranto entrega-te, agonia expressa nas palavras
Um pavor contido de sabe lá Deus o quê, quando encharcado muita alegria
No outro dia está-se um pouco menos vivo
Temos cinco bolas na mesa por encaçapar
E a morte só falta o bolão
Por favor não fale de mim, não fique me lembrando quem sou
Bastam meus quase sessenta quilos e a sensação infalível
De que perdi a partida do barco que me levaria de volta pra casa
E que só passará novamente daqui meio século
Queria saber o que é esta contenção, estes milhões de fios invisíveis
A nos enredar, limitar os movimentos, retrair os músculos
Esculpem o proceder de cada um, uma valeta onde corre a água
E fora dalí estamos fora, é um horror inimaginável
O dever de agir ou não dentro de certos enquadramentos
Que se deixar conseguirão enfeiar e esfriar
Toda redondeza e fervor do animal humano
Paro o trago, hoje já não bebo mais pinga
A chaga que seria amenizada abre-se e arde mais e mais
As moscas que a infestam de bicheiras, as linhas são mesmo tortas
Mas nem por isso irei cambaleando e é por haverem tantas pedras
Que evita-se tropicar no alívio que viria a não sei que dor
Engrandece a desconhecida e de estar escondida vem a sua força
Destroçando-me ao ponto de o amor não bastar por não funcionar
Como seria certo que não sei como é, não servindo
De paliativo que torna suportável isto que me faria mais vivo
Se não bebesse para fugir disto que assim negado
Vai matando devagar
Mordo teu pão de dor companheiro, isto significa dar as mãos
Aí é que a coisa toda é significada, o meu bocado
Não fica tão amargo abocanhado na outra boca com amor
E o abraço da companheira é um pão doce de montão
Vem minha cura as dores cantam em coro:
_ "Estamos sempre aqui."
Resplandece o sol no azulzíssimo dia somos jovens e nos amamos
E veem me dizer que estamos perdidos lateja a velha chaga da civilização
Que jamais se firmará sobre as pernas a torpeza de poucos gerando
A tristeza geral um míssil explode a mesquita no deserto a amargar
Os olhos nas manchetes onde baba ávida a massa de urubus malditos
Os que desvelaram as faces das mulheres e descobriram o rosto dos
Homens vestiram os corpos dos índios e calçaram seus pés
Amaldiçoados sejam os satélites artificiais o ventre contorcido
Em náuseas me faz suar frio e nem que vomitasse todo meu sangue
Sequer a morte me aliviaria do asco a funesta felicidade
Das mil vezes demoníaca democracia capitalista desta prisão
Mil vezes negra a que chamam liberdade dourada
Ó franca crueldade não sejas tímida que a bruta afronta é melhor
Antes a bitoneira que constrói fosse um bombardeio de destróieres
Prefiro para a pacífica latino América um tomawalk do quê um filme
De Hollywood envie-nos logo antraz em vez de coca-cola e mac burgueres
Deem logo um banho de agente laranja na Amazônia invés de roubar-lhe
Planta por planta, pedra por pedra, assim a palermada daqui saberia
Quem sois e teríamos contra quem lutar e não morreríamos pouco a pouco
Desapercebidamente sem ter nada o que fazer além de fumar um marlburro
E passear no shopping
Venha Morfeu que já veio Dionísio e já veio Orfeu
Quero ascender ao Olimpo e mergulhar no Hades mas o corpo me prende
Este cavalo de Tróia oco de verdade pleno de perfídia
Não temo as Queres tão pouco Cérbero ou os Ciclopes
Venha Morfeu injete morfina nas veias de Prometeu
Pois o que seria de nós sem este grande ladrão
A quem Hermes não pôde ocultar venha Morfeu quero sonhar, descansar
Saber amanhã cedo as coisas que escondo de mim
Enquanto mateio desvendo-me por ti Morfeu
Esbarramos em meio ao caminho andávamos em direções opostas
Desiludidos de nossas rotas e incertos quanto as metas paramos
Pra descansar juntos não quis seguir teu caminho nem quiseste seguir-me
Pensamos então em seguir outro rumo entre o teu e o meu
Mas antes nos perguntamos se realmente era necessário buscar ao destino
Como não descobrimos resposta alguma continuamos aqui prostrados
Isto evita os tropeções mais não impede que um raio parta nossas cabeças
Partindo sempre do zero a cada dia, a cada hora contornando e retornando
Ao ponto de origem , ponto de partida pontual ao espaço inteiro
Destemporado multi-dimensional pré-pós-presença imanente ao nada
Permanência cintilante sono e vigília, vida e morte, virar de página
Do livro enorme da obra descomunal escrita com sangue perduramos aquém
E além de tudo consciência misteriosa nublada por lembranças esquecidas
Do quê fazemos questão de esquecer beberrões cegos tateantes
A grande maioria de nós meros mortais até mesmo a existência
Nos dias de hoje torna-se mais e mais descartável
Vai homem te lambuza é da lama que vieste volta ao húmus encharcado
Teu berço este brejo de lodo o ventre do qual foste modelado
És boneco de barro brinquedo da vontade avassaladora avalanche de fatos
E consequências da qual acidentalmente surgimos em nós curiosos
Sentimentos manifestos adoráveis sensações de dor e júbilo para quem
Nos sustenta remota e invisivelmente e de maneira miraculosa nos permite
Mesmo sendo praticamente impossível interceder no despencar
De tantas pedras e delas erguer um templo que será tumba
Poderá erguer-se sobre as nuvens e aterrizar em meio ao mar
De tantos e tão variados firmamentos que criaste tudo em ordem
Hierárquica impensavelmente sujeitos a uma mesma lei
Aqui luz e grossa treva há o mito que sei de mim que é muito pouco
Perto daquilo que finjo não saber e quase nada frente ao que sequer
Desconfio somos assim mesmo imperfeitos a beça só espero que saibam
Me escusar os que são vítimas de minha faltas as quais desesperadamente
Esforço-me por minimizar
Pra isto nunca falta engenhosidade há sempre uma bela desculpa
Para adiarmos aquilo que estamos cansados de saber que é certo
Coisas supérfluas tem-se demais e ainda quer-se ter muito mais
O tempo tem sido muito mau empregado ajuda-se de menos o próximo
E na tentativa de ajudar-se a si mesmo somente atrapalha-se toda a criação
Em angústias de fontes misteriosas gulas incontroláveis desejos
Que devem ser saciados apenas por terem sido desejados inexplicáveis
Caprichos a entornar o vaso do espírito na latrina da estagnação
E do esquecimento há sempre desodorantes e incensos que tentem disfarçar
A podridão dos miúdos dos cadáveres ambulantes seres amputados
Da parte invisível aleijados dos órgãos mais sensíveis os olhos podem
Assistir ao televisor mais estão em fase final de catarata pra si
Os tímpanos captam ruídos e música mais estão atrofiados para a escuta
Do mais absoluto silêncio que a mente tagarela não permite deixe pra lá
Fique pra amanhã e não se fala mais nisso ainda não se está preparado
Nunca se está preparado pra verdade mais pra iniqüidade qualquer hora
É hora, deixa estar ta tudo massa, tudo legal vai gordo pro matadouro
Que porco magro dá pouca banha e muitas são as engrenagens
Que precisam ser engraxadas
Quebre um carro na frente de casa pra que possa ajudar a empurrar
Bata um mendigo no portão pr'eu compartilhar do pão e da coberta
Algo que me descongele desta apatia monstruosa haja um cataclisma
Pra que eu seja apenas mais um desabrigado e divida o chão pra dormir
Coração é grande demais pra amar só uma pessoa ou uma dúzia que seja
Ele não tem paredes que atrofiem ele esvazia e isto é tristeza
Isto é que é miséria que um bando de posseiros do tamanho da humanidade
Invada as vastidões improdutivas destes latifundiários cardíacos
Não aprendi o ímpeto de doar-me a todo e qualquer vivente
Pobrezinho do que ama só aos seus ignora que todos são os seus
Coitado de quem quer o amor exclusivo se minhas pernas acorrer ao socorro
Que caiam logo estou cansado dos ideólogos da indiferença os que
Professam as leis do cão estão fora da lei da franqueza para com instintos
De compaixão que estão acima desta vida na exaltação da consciência
Abnegada cujos valores vão muito além do tempo e do espaço
Olhos meus olhos este pôr-do-sol no qual jamais captam o milagre
Da beleza que o envolve por quê cargas d'água não vêem a coisa inteira?
Nada de mais é só enxergarem o que clara e simplesmente se há pra ver
Permitem que o pensamento seja-lhes véu e que a rotulação pesudo-racional
Da cabeça envolva-os em espessa névoa as chamas do sentimento cobrem
Lhes de fumaça e os fazem arder a programação do meio dá o medíocre
Afastamento o ultimato cruel: " Não ligue não meu velho é somente o
Sol que some no horizonte como acontece todos os dias o mesmo ocaso que
Sempre vistes e que tanto ainda verás cuida como vais suar teu pão de
Amanhã e como usarás a porra na cabeça certa para que ela não te idiotize
Olha lá o sol já foi embora meu caro não foi nada escute esta voz da
Areia do entendimento nos teus olhos".
Sutil marejar incessante de ondas a varrer o jardim da praia onde foram
Lançadas sementes de silenciosa atenção pelas mãos invisíveis do
Jardineiro que não existe porque não pode existir floriram flores
Bordadas nas orlas com minúsculos brilhantes azuis polinizados por
Noturnos colibris sub-marinos em onírica linguagem proibida as palavras
Que conhecemos comunicada em cantos secretos ao mar que murmura de volta
Subindo a maré do diálogo monólogo que cheia nos devora de volta a
Profundeza nos devolve devoto o pélago colhe as ramas imperecíveis
As horas e eras intactas permanecem estas pétalas que temos todos
Sempre conosco e jamais houve nem haverá nem há ladrão que possa roubá-las Excetuando a nós mesmos que as roubamo-nos ao esquecê-las
Acrobacias flutuantes e mirabólicas sobre entes queridos e feras selvagens
Fantasmas flanadores nos cemitérios lodo movediço da lógica logo raso
Fatal aos maus nadadores pincelado a sangue e fezes no consultório do
Doutor histérico psicótico da vida espiritual com seu divã repleto de
Incestos o animal que é a alma no homem vai muito além da mendigada
Migalha de dez por cento mesada mirrada do pai pão duro com a prole
Ingrata maldito cientificismo mutilador a psique não é um indigente
Que se possa dissecar com o bisturi cego da razão o medo nega o incompreensível
O burro ceticismo amputa o coração a vã incredulidade
Empalha espantalhos que tem por verdades únicas suas ridículas reduções
Que gaiola prenderia o pássaro que é só canto?
Gesta a Supéte
Na época de ouro sem fronteiras não há maior herói na carabina
Em Paraguai Brasil ou Argentina que o bravo desta saga campeira
Nuvem dourada de trilha brasina foste a resistência derradeira
Após ascenderes pela palmeira voa até a ilha a tua neblina
A única via é de guerreiro no lugar da flecha lança a pena
Implumes prosseguimos de corpo nu cavalguemos o canto cavaleiro
O demiurgo inda envenena glória a semente de Arajú!
Para júbilo das sete missões sacrifício do bélico rito
Nas barrigas estremece teu grito vertiginoso nas sutis pressões
Pregarem o nome de ChechuCrito a quem louvastes em longas sessões
Nas tuas sacras e secretas monções aliviando o peito aflito
Temporal delito na América do que lutas-te resta o eco
Resisti-lhe inda o ñhande recó hoje a ressonância mais rica
Em meio ao turbilhão cacareco só se sai onde se entra neste beco
Na certeza do final incerto da linha ao menos da memória
As galinhas e os frangalhos saltam de esporas sobre a eternidade
Assim como as varas das capivaras precipitam-se ao infinito
Medrosas ingênuas hostis também a horrível desarmonia Ahrr....
Da feiúra cordilheira de aspectos nauseabundos
Se intocável não fosse esta deusa universal da bonança
Envolta em luz velada a volitar as verdadeiras virtudes da divina moral
A beleza ( da totalidade absoluta de tudo no mundo) Sabe-se lá
Se inviolável não fosse...
Como homem ergui-me do barro ascendi em fulgurosa chama
Um dia notei a meus pés a poça de lama pensei em enterrá-la só de sarro
Comecei a jogar terra em cima até achar que estava tapado
Depois água pra limpar Que tapado! O poço crescia e aquilo virou um imã
Compulsão obsessão doentia cobriu-me a canela aquele fosso
Depois de joelhos e foi até o pescoço quase engolido tive a percepção tardia
O buraco negro era o materno histérus que redivivo projetado
Devorava-me Eros
Transforma tua ânsia em versos o calor do início da tarde de verão
Te derruba te alucina abandona esta velha casca constrói uma nova casa
Arma tua rede noutras sombras não espere a mulher prometida ela nunca vem
O vento indicará o caminho respire outros ares desvencilhar-se da emoção
Antiga contemplação de auroras jamais vista cada nascente desmente
O sentimento de antanho tamanha a revolução de todo o instante cumpra
O dever de tua sobrevivência maravilhar-se da vida estupenda força
Da tua vontade por única meta vencer-te este anzol fisga teu lábio
Mordeste a isca será ferido teu coração lacina a alma contorce o corpo
Desfisga-te desacredite da falha desenterre a semente da falta antes
Que brote faça-se luz
Não vou a guerra por ti meu amor não sou Marco Antonio estou bem aqui
Estou bem assim mesmo solitário e mandrião mesmo na miséria ou no frio
Estou satisfeito mesmo sem amar no teu peito ó pátria mãe tua pútrida mão
Não me conduzirá a morte não vou a luta nem a puta que nos pariu
Não quero mais nada
Tentam a doma do meu instrumento de estar ainda que instam que
Eu acate querem-me afinar dentro da escala com lá de diapasão e clave
De sol prometem comas e distorções mais não posso deixar-me domesticar
O ser que represento é ímpar e errante ao mesmo tempo nota e sinfonia
Meu corpo tem vozes em todos os tons e presta vida vibrar este milagre
De sons não posso aceitar o osso nem a ração se deito rolo e finjo
De morto poderão me botar coleira e acorrentar ou prender atrás
Dum portão para que eu lata o hit do momento
Idília
Abelhas nas flores dos pés madroçar do canto colho do pomar
No quintal após adubar podar e reler a doçura destas frutas
De onde terá partido o castigo infligido ao negro e ao índio a mouros
Judeus e tantos povos nas tantas guerras de conquista sem fim?
O mundo cristão cometeu também a heresia de cultuar o ouro acima de tudo
E mesmo no leste quão poucos escaparam da herege intolerância
As raças todas algozes umas das outras autores das maiores atrocidades
Teriam sido castigados com a consciência de seus crimes e bestialidade
Na qual desperdiçaram suas vidas será que linhas tão tortas levam a
Algum lugar? Que febre domina os que dominam o ponto de trazerem
O purgatório pra terra? Mas esquecemos a ostentação soberba e vaidosa
De seres cheios da merda que não somos nós mesmos na simplicidade
Esta viva a nuvem a vagar informe criando toda forma ao sabor do vento
Junto as marés varramos o chão esfreguemos a roupa deixem que os reis
Massacrem-se sozinhos psicóticos de alto escalão por nada cessam as
Chuvas de mísseis ó senhor piloto de caça diga ao excelentíssimo
Presidente para ele mesmo jogar suas bombas se quiser e vá cortar a
Grama do seu jardim para nele brincar com seu filho não sejamos
Instrumento de destruição porque abandonar amigos e lar para ir
Do outro lado do mundo assassinar? Se a luz esta em revirar a
Horta com as próprias mãos por que escravizar alguém para fazê-lo
A paz merecem-na todos há água e raios quentes vindos do céu
Há fogo na terra nela há rios e lagos há frutas nas árvores e nas
Gramas grãos hás frutos de ar chão e mar há o sal a pedra e o sangue
Estaria na carne impregnado o amargor? Os números do calendário
Não são sem a lua e as estrelas estas porem não precisam de relógio
Pra manterem sua precisão o horror precisa do homem como pau mandado
Ao homem porem abomina o horror teria a natureza necessidade de
Genocídios? Ou o ser humano vai além da conta numa avalanche desenfreada
Desbarrancar num abismo que se nos déssemos conta ficaríamos apavorados
E perplexos? Preciso do temor da caverna da noite medo do trovão
Da profundidade da mata fechada da solidão basta a morte do animal
Caçado bastam-me as brigas que brigo com os amigos os jogos as danças
As épocas recriam os eternos rituais as doenças dos vacilos de cada
Um somam-se e acumulam-se até a catástrofe devemos ser espertinhos
E dançar conforme independente da música que toque viver o dentro
Alheio ao fora? Existiria tal posição? Não lutar pelo que acreditamos
Será a única possibilidade de futuro? Não precisamos deixar de viver
O presente lancemo-nos armados de afagos contra o dinossauro de lata
Do que não é e ainda insiste que sejamos conforme seus conformes
E tudo que aqui foi dito é delírio duma cabeça oca é isto mesmo
Não há como compreender a ordem das coisas oxalá eu seja redimido
Por escrever tanta besteira
O mais tolo é aquele desejoso de pisar solo proibido se não perguntasse
Coisa alguma teria todas as respostas lançando-se destemido pelo caminho
Que se há pra trilhar escolhendo o que diante de seu coração é a melhor
Via seguindo descalços sobre areias escaldantes e espinhos entre urtigas
E gravatás escalando penhascos e atravessando grutas mergulhando em
Violentas correntezas a arrastar-nos sobre brejos movediços saltando
Cobras e acendendo fogueiras para que na madrugada não venha o frio
Nem a onça nos atacar esgueirar-se nos cipoais e taquarais seguindo
O nascente ou o poente ou um rumo qualquer seguir como o corguinho
Brotado no alto do morro e vai por onde for para que o solo evite suas
Dúvidas como é difícil ser gente e achar que se tem escolha sim a temos
Até que ponto não sabemos e esta escolha escolhem por nós ou nós a
Escolhemos? Não escolho por não saber quem sou e seria mais tranqüilo
Se não soubesse disto só quem não sabe que não sabe quem se é que sabe
Quem é mesmo sem sabê-lo a consciência das coisas é o que inventamos
E jamais nossas fantasias são fiéis ao que verdadeiramente é se é que
A realidade pra nós não seja o que imaginamos que as coisas sejam se assim
For cada um vive um universo alheio os anjos arfam suas asas neste véu
De suaves vapores perfumados com os polens do maracujá arco-íris
Fosforescentes fendem as trevas goteja este diamante gotas de orvalho
A umidade que buscou o branco veludo da verde folha agora derrama....
Tenho expectorado pulmões afora os espectros etéricos a cachorrinha
Fixa os olhos no vazio vai farejar e resmunga ou não encontra nada
Ela pensa ué? E coçaria a cabeça se pudesse e se pensasse como nós
Pensaria : será que to ficando biruta? Mas ela pensa sem palavras
Pensa da maneira pela qual veríamos muito melhor a tudo se deste modo
Também soubéssemos pensar
Terminou o farto o parto o porto um dia chegaria enfim encerrado o ato
O astro novamente caiu de si em si décima abaixo debaixo em cima vazio
Após haver dado tudo apostado alto e perdido todas as chances de não
Ter jogado não podes prestar atenção em ti preste agora então não
Estamos contentes nem ao menos mais contentados outra saga e nada
Acontece de novo
Estando minhas mãos espalmadas a noite lançando assim livre ao universo
Este alado coração estalando uma bitóca a lua brinco de princesa mais os
Astros veem-no doutro ângulo é um mendigo inter galáctico que não somente
Humilha-se por sua estrela mais exige-a a via láctea perfurando-lhe as constelações
Com dedos intrometidos como se a qualquer hora qual astuto ladrão
Pudesse furtar a orbe um planeta
Estendo minhas mãos mais não alcançam as tuas
Poderão o tempo e a distância matarem em nós as pessoas que trazemos na alma
Sob os auspícios do mais vivo e devoto amor como se no firmamento a passagem
O sol? Explodem sóis até mesmo dentro de nós a cada momento haverá um centro
Ao infinito? Estamos em toda parte e em parte alguma vivo menos o carnaval
Que as festas as tuas graças
Estenda tuas mãos aos céus de joelhos sobre a areia e as ondas minhas mãos
Hão de envolver-te as escamas de sereia banharão em sal teu corpo pálido
E esguio num roda-moinho dum sol também sub marino hás de ser tragada
E escoras ao meu leito do meu lado no meu peito onde as espumas são as rendas
Do lençol
Quem dera saber dar-me e desfrutar sem medo o amor em seu abraço
Todo o infinito quem dera viajar em lombo de burro respirar ar puro tomar banho
De rio e comer as coisas da roça no quintal o mel de nossas caixas a lenha
De nossas achas quem dera a paz provinda do entendimento brindasse por nossos
Olhos nossos iguais e quisessem nossa companhia pela doçura de nossas vozes
E pela verdade de nossas palavras quem dará este ideal ao homem? Que comeu
Do fruto proibido seja lá o que isto signifique e matou ao próprio irmão
Que acredita na matéria e no conforto e não sabe acerca de si nem um mínimo
Que lhe proporcionaria a tranqüilidade e beleza d'alma
Negligenciei hoje os sonhos e os ponho a mercê de quem quiser sonhá-los
Ou que os deixe para mim amanhã neguei o descanso para o corpo cansado descansem
Por mim quem quer o sono do Justo? Que labutou desde a manhã e merece
Um repouso sem pausa
Q'este fogo de chão nunca se apague o copo jamais esvazie mesmo q'eu
Sorva os tragos mais sedentos da dor mais velada e letal soe a música até
O alvorecer que a vida a pulsar neste corpo não desista a toca fique
Impecável a poesia não cesse tão já desabe logo a tempestade que maquiará
Minha insistente vigília
Impossível não queimar quando outro arde por nós ainda mais depois de nos
Entregarmos como separar sem nos estragarmos? Ficamos pela metade não é por
Maldade é solidão e pavor vontade de conhecer o novo por isto nos juntamos
Sem jamais termos estado espalhados esparramamo-nos todos uns sobre os outros
Em qualquer olhar ou passar mesmo sem ver tocamo-nos mesmo de longe na mente
Da saudade da lembrança mais a falta de ti em mim é falta de mim mesmo em mim
E poderia ser falta de outra coisa que daria na mesma agora o coração comprime-se
E um grito implora o penhasco que retornará seus ecos que ninguém irá
Escutar
Espatifam-se os cacos destroços tomba aluminaria opaco filme regaços recantos
Ruínas a morte infiltra-se ali busca de vida mansa e molenga na verdade dura
Embrutecida pesada calhaus montes de pedras e emoções muralhas massas de
Cimento e trigo deus esta oculto no homem cria canta vibra é se caísse da cama
Meus pés estariam mais fodidos? Virgem é o coração daquele que nunca amou
E amar é ser do quê não é somos do barro a carne restolhos da guerra do quero-quero
No milharal da saracura no arroz o cereal minério sal nada vai além
Do símbolo de si uma indisposição assombrar-se do pináculo do acúmulo
Bruto lugubremente com as pedras por amantes as mãos já não fecham-se de grossa
Espessas os mandriões são mais felizes esquivando-se da dureza crua com fome
E sagas noturnas a vida existe sem orações segue sem trabalho nem meta
Nisto as morais são imorais e as razões em nada razoáveis o mendigo implora
Seu trato o pedreiro constrói sua ração a nação empalha seus heróis os esportistas
Os inúteis soldados a putrefata política as besteiras todas meu corpo
Brutalmente seja o eficaz instrumento do tormento atordoante de poder existir
Antes de ser mesmo sendo e após ter sido
Exaurido de mim do que realmente não sou crio-me outro aqui mais correto ali
Mais torto em baixo brilhando encima roto no corpo a alma na alma o topo
Em espírito vivo na terra morto
A estrada é a melhor companheira de viagem porque com ela ficamos sozinhos para
Depor no lixo as escaramuças surradas que negligentemente nos enfuçam
Mudo querendo responder a eterna pergunta, cansaço e dúvida
Um olhar matreiro acompanhado do sorriso da garçonete do bar
Prato feito arroz, feijão, carne de panela e cana
Todo o universo sorriu- " Mas cadê a eterna pergunta?" Que pergunta?
Os olhares de flerte, d'esguelha, faceiros - Ahahhh
Na construção da forma tirou-se o nível, pendeu-se o prumo a cada viga
Das moléculas, ponto e vírgula da oração, diretriz esplêndida
Da primavera, os moleques batem uma bola descalços sobre a terra
Em que tropeço nos caiu o norte do bolso? Colocaram um imã escondido
Pra desnortear os graus da bússola. Digo: -" É meu." Está escriturado
Dita-nos o comércio passo por passo, mas deve haver um rumo além
Ter alimento e abrigo, e que não seja apenas para a carne
Ficando assim nutridos para a aquisição interna de asas
As escrituras de posse são falsas, a pele é a única fronteira
Dorme e desperta pra ilusão das distâncias, dispersa a fumaça
Verificar-se-á que jamais coexistiram duas naturezas e sabendo disto
O espírito humano apita o final da partida que devido a inconsciência
É tão desengonçada e estapafúrdia, onde engatinhamos apavorados
Criando monstros que logo disfarçam-se de anjos e tratam de retocar
O paraíso de cenas infernais, na necessidade de nos passarmos por
Cegos vivemos as cegas, é o alto preço de merecer nossa descendência
Não se tratam de raças trucidadas ou matas desertificadas
Falo daquilo tudo que o horror tenta apagar, disto e daquele outro
O torto, todavia cadê a retidão destas linhas? Neste ponto,
Envergonhado o vate confessa seu delírio : _ " Acredito apenas que
O homem pode viver sem o sacrifício da maioria". Espantado o poeta
Vê ao seu lado doze entidades malsãs com longas túnicas brancas e
Na cabeça eram bodes que falaram em uníssono com ele e acrescentaram:
_ " Estamos com você ". Nisto vieram por trás das doze santidades malsãs
Centenas de capas pretas e os malzões disseram _ " Peguem-no
É um terrorista".
A agonia de não ser um algum dia massacrará a alegria de encontrar
Açudes com centelhas de amor pra sobrevivermos a sede do centro
Dentro de nós mesmos perdido, andando em círculos na velha floresta
Oceânica madrugada borrascosa a fundar-se no turbilhão de ondas
E há quem preze a demência da rígida e ininterrupta lucidez
Que passa um papelão sem precedentes pela indiferença
Quanto aos próprios absurdos
Parece mesmo um embuste, no vácuo presença flutuante, a crise
Denuncia o arranjo, chegar ao que somos a parte ao que inrrustimos
Há um cetro imperscrutável, o cálculo emudece, a razão silencia
Apenas uma nova linguagem poderia abordar, riscar a silhueta
Da fronteira intransponível, mas qualquer linha segue para sempre
Jamais iremos tão longe, ainda que fôssemos os olhos perderiam de vista
O covil dispensa os edifícios, a fé que não sabe longínquamente intui
Vamos tateantes grota adentro na ausência absoluta de luz e som
Segredar o acordo íntimo com a escuridão, psiu, o dedo indicador
Cerrando os lábios, dalí renascemos ao dia onírico, vestimos a carne
E nos forjam um número, multitude de códigos dum senso insensato
Escultura humana talhada pelas eras, não somos nada do que possa ser
Compreendido muito facilmente, tendo um vislumbre deste fato
Tiramos de letra esta curta estada, mas se nos deixamos tomar
Pelo pavor de nenhuma nos dizer aquilo exatamente que crucialmente
Precisamos de ouvir, abre-se caminho então a civilização tirana cruel
Oi, meu nome é Napoleão, sou megalomaníaco, sinta-se feliz em ter
A honra de falar comigo, sou um gênio, o mais talentoso, o melhor
Por isso deves me servir ou te destruo, hei de chupar até a última
Gota do teu sangue e todos hão de me querer bem, sou perfeito
E irei humilhar-te se tentares ser forte ao meu lado. O quê? Mesquinho?
Mas claro que sim. Falso? Tudo deve se arranjar da melhor maneira
Reconheça e louve minha superioridade, deixe-se ser explorado
Beija-me a mão, ajoelha-te a meus pés, como me orgulho do meu poder
Sou o grande amigo, não queira ser meu inimigo, como sou grande
Venham todos a mim, eu os conduzirei, direi como devem agir e pensar
Eu os salvarei da morte
Implacáveis marretas estrondam nas colunas do senil firmamento
Prestes a perder sua bengala, o crepitar da água na telha faz-se
No cérebro um incêndio, um tatu a notivagar passa-se pelo anscestro
Espírito da onça já extinta nestas plagas, os borbulhos do rio
São as vezes os carrascos do tribunal onde foste condenado
Qualquer filosofia é uma torre de cartas de baralho sobre um tapete
Que qualquer criança pode puxar, se questionar-me o porquê de ser assim
Ou de agir assado e estar frito, cozinhar uns assuntos em banho Maria
E outros arderem no caldeirão do inferno responderia-me só com mentiras
Não dou lá muita importância ao que penso mais é bom fingir dá-la
Quantas artimanhas
Do sutil ludibriador
Nunca somos tão astutos
Como quando queremos nos tapear
Pássaro noturno de canto mudo
Só no oco infinito do crânio
Revoam os versos ao entôo
Na alva dou lugar a saracura
Sobre o orvalho na folhagem
|
|
O sensor as sabedoria alerta-nos
Em certos pensamentos: "Este
não é tu esquece". Mas apenas os anos
E os calos desenvolvem este sentido
Não mais o não eu em mim
Faz-me insano e impotente
Não carece idade nem provação
O estômago herda este fel
O que é bom conquista-se a muito custo
Muita lida
|
Como fui desaprender o não deixar passar batido os instantes superiores?
Coisas demais aqui interagem e a ignorância do que sucede
Faz-nos desperdiçar aquela gota única
Do orvalho de cada manhã
La chaleur enivrante qui brulle ma tetê c'est La bête-moi-meme
Tremble um froid dans mon corp em sortant d'um goufre secrete
O oublié lês reves quel crime danger de ne lês comprendre pás
Jette-nous là bas aux enfers denonce no fai blaisse et nous nos cachons
A terrífica musa evoco ela evacua os vermes das minhas entranhas
Qual melífluo deleite não traz oculto na manga equivalente fel?
O prazer é dos deuses o homem entorpecido de mentiras não sabe se sofre
Ou se morre mais quem garante que na morte cessará sua dor?
Enfurno-me em imparidade a musa cruel da loucura com seus véus de chamas
Azuis bailas nas trevas do firmamento após incinerar-me com seus raios
Seu trovão espalha-me as cinzas que as lufan'águas de sua intempérie
Vem arrastar chove com meu sangue gela-se com o vazio de mim
Musa vampira que crio pra me devorar
E agora que escancarei as portas deste coração tão reservado?
Lutamos pela própria solidão alçapão pra furnas desconhecidas
Sob os pés atolados da consciência após buscar tantas beatitudes
Tudo que precisava neste momento era saber dançar
Queria estar atirado nu na areia desta praia mais algumas pessoas poderiam
Não gostar chorar e rir mil lágrimas de gozo mais a molecada caçoava
E chamava de mariquinha daí os músculos se travaram e o peito perdeu
Sua vazante cantar gritando poderia assustar alguém capaz até de chegar
Ambulância ou camburão por que tenho de ver tão claramente a tudo que a
Maioria põe panos quentes? Queria ficar dançando e caçar com arco e flecha
Que não houvessem muros nem grades que todos se respeitassem só pelo amor
Caldeirão incandescente de carne cura a morena em sangue é um desanjo
Umas garrafas de vinho tinto e outras doses de absinto o cordeiro ferveu
No desajeito e quis ser o diacho em toda lascívia mastigar a terra mesma
Latejante desligado o fio do coração a cintura desligado o neuro-chip
Da alma aos pés na finaleira um cachorro treinado manso e esporrento
Madrugada do sabbat minguante lunar domingo o sol chega bem junto
Esperado alimento do calor quieta solidão de beira de mato tudo que evoco
Hoje as labaredas da grota evocarei amanhã as salgadas cachoeiras e a
Ex fonte ressequida das lágrimas outra vez negar-se-á dizendo : " Arde só
Definitivamente não terá o meu consolo".
Escurece
Começa a cantar o urutau
Uuuuu uuu uu u
Agora é a vez de sapos e grilos
Uuuuu uuu uu u
De ave só o urutau
Seu lúgubre trítono
Sombrio estrondo
Uivo de noturno calor
Uuuuu uuu uu u
Seu lamento é pelas estrelas
Por estarem tão longe
Eco que se ergue
E vai baixando lentamente
Reverenciando o silêncio cala
Uma prece a noite
Seu hino
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Passou o solstício de inverno
Todavia arde a grande fogueira
As chamas convulsionam-se furiosas
Exercícios simulados puseram muita lenha
Não há o que pensar queima o crânio
Nada a compreender é desfrutar e padecer
Dar corda ao encantamento é importante
Secar fora as pastilhas do freio
Um viva as cartas aos dados e tabuleiros
Até que o precipício nos ampare
Voar para o norte segura nos rochedos
Capotar quebrar-se todo na próxima curva
Fôda-se a febre passa esfria
A vida quer ardê-la as últimas
E se tomares o calmante
Não serás perdoado
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Este vazio o que há de suprir? O amor mais intenso? A solidão em meio a
Natureza? E esta tensão? Este segredo de mim que talvez jamais desvendarei
Casa habitada por ninguém ó limpo céu desprovido de estrelas mata de
Frondosas árvores que nunca deram frutos nem flores e jamais darão vejam!
Agora já cintilam na noite os astros são porem finitos e suas rotas calculadas
Por um computador incoerente com os ciclos de fertilidade terá
Sido clonado o universo? A floresta com flores de plástico e nelas
Os colibris de controle remoto
Não há trilheiro algum neste matagal sigo os sinais de água se tenho sede
O cheiro rastro e som dos bichos quando tenho fome tóro mato mesmo não
Importando donde auróre nem onde ocasione de se por o sol estio ou toró
Brabo tanto faz nas estrelas nunca cuidei direção mesmo porque a coparia
Desarvre cobre quase tudo clareira é a coisa da mais rara desrecordo
Quando fui orfadado nesta floresta despertamos chorando ao pé dalguma
Árvore e aquelas cujo o tronco tem um grande ocado abrigam sempre ali
Seus fetos desafetos que jamais verão sol
Cadeias do amor candeias claras termino logo a casa vamos ao que há de ser
Não hesitar um instante sequer após aperceber que adiei de mais não sou
Mais um só sou um em dois o amor une apartando-nos da solidão chora o rei
Sobre a pompa desleixada de seu castelo algo em nós lamenta felicidade
Se adapto-me ao moderno tenho que prantear a livreza da selvageria
Um potro com freio e viseira puxando um peso que não suporta sangrando
De tanta chicotada castrado cercado marcado só quero correr campo sem dono
Sem pouso nem fadiga nem fronteira tendo somente a vida por dever
Deixa de brincadeira escolhe logo um rumo a porta da gaiola esta sempre
Aberta não temas o vôo cante para quem aprecia realmente o teu canto
Mas primeiro temos de conhecê-lo e como fazê-lo comendo esta ração
De alpiste
Queria fazer uma prece de pesar mais não sei ao certo a quem dirigi-la
Se a natureza ou se a Deus ou ao mal porque alguma mente estreita há de
Rotular e tachar-me com algum ísmo colocando-me no bolso-forno da ignorância
Dedico então meu pranto a terra pelos carros e pela indústria pranteio
Lamento profundamente muito dos usos dados a tecnologia excecro o homem
Materialmente progressista agora lágrimas pelo espírito humano agonizante
Frente aos sistemas educacionais impotente frente a opressão e sovamento
Das massas rebanhosas sem salvação um grito desesperado pelo ser de cada um
Que a carne envolveu de lama e cuja centelha de autoconsciência foi
Ofuscada pelos holofotes lacerantes pêsames aos poetas da vida por isto tudo
E mais pelo computador por todos peço perdão e sei do castigo só não sei
Direito a quem dirigir-me não sei de como me hão de zombar os autômatos
Virtuais que outrora eram gentes e eu tinha que falar vinha perdendo o sono
Vinha fumando muito bebendo demais ia desviando do viver a realidade
A algo ou alguém hei de escusar-me por ter me acomodado e anulado
Ter engolido a seco a pílula mais amarga de desrespeito a alma animal
De ter lançado meu ouro aos porcos pra me apossar da fétida lavagem
Levei luz ao esgoto pra te dar gosto vendi um pedaço da alma pra ganhar
Teu coração mais não posso compactuar com aquilo que pregará um código
De barra na testa de nossos filhos
És solo firme terra fértil
Onde as plantas dos pés
Da criança correm
Atrás das flores do sol
Dos cantos pra te presentear
Os rostos prostrados no chão
O profeta assombra-se do céu
Sete anjos os sete selos
Abertas as sete caixas de Pandora
A chuva lavará
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Escancara seus portões o portal
Dentro há luz e escuridão
Boa parte contrasta um clarão
E o ouvido da memória
Não ter suportado a grande prova
Ter secretamente jurado
Um amor perene e exclusivo
Ma a solidão crescente inrrompeu
E clama por amar-se incompleta
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Quem mandou nascer desgraçado? Saiu na chuva é pra se molhar resta-me o lema
Macabro fudido, fudido e meio não pedis-te pra nascer? Até aí meu velho
A Inês é morta porque ninguém pediu agora festeja teu luto manda a parada
Molhada acostuma-te as bicas e balões é a prescrição de todo perdido que
Escolheu o atalho dos espinhos ai de ti que não quis se trair ai de quem não
Primou a grana ai daquele que insiste em não se vender em não negociar o tempo
Coitado de quem não entrega tudo de valor real que se há pra entregar assumo
A cabeça dura ser mais tinhoso que o tinhoso ser somente quem se é é crime
Engula com gosto os sapos entalados na garganta qu'esta lida não é mesmo fácil
Na beira da estrada fábricas e motéis as luzes vermelhas a fumaça das chaminés
Um cão esmagado um carro amassado no meio da estrada corre o ônibus o caminhão
Pára-se no pedágio passa-se dentro do túnel sob viadutos e estrelas quando não
Molha-se a pista ás vezes desce a neblina e a morte se esconde por detrás
Um filho da puta apressadinho quer tirar o pai da forca ultrapassa do jeito
Que dá um bêbado dorme ao volante ou não vê o poste ou vê postes demais
E o enterro é na outra semana e a polícia faz o BO alguma mãe perdeu o filho
Alguma filha perdeu o pai alguma mulher deitou pra sempre sem o seu homem
No sangue derramado sobre o asfalto quanto choro fez brotar a pressa o vacilo
Já gerou tanto pranto nos olhos humanos de corações amputados que daria pra
Encher um mar com os rios de lágrimas das estradas sempre a partida de quem
Chega ou de quem vai sempre a chegada daquele que ficou a chaga sempre aberta
Na curva na reta no aquém e na meta que nunca foi alcançada
Sinistra que escorre sob meus pés encardidos e escorreu sob os pés nus
De raças extintas mais ninguém liga " é só mais outra obra" vamos ficando
Insensíveis destrutivos e artificiais despojados da única coisa verdadeira
Normal é a evolução não encana mais quando nos cruzarmos na rua e eu não te
Reconhecer e tu sequer tirar os olhos do chão com medo de ver o meliante
A trazer sujos os pés podes saber que infelizmente é verdade o que digo
Que isto tudo é uma aberração monstro pérfido e sutil e se não há nada que
Se possa fazer não de sucumbir pela tristeza todos os sãos corações
Ainda que arrancasse meus olhos morreria pelos teus
Em todo e qualquer porto não me espera um abraço gesto falso algum pois em
Cada volta que dei desfiz dez laços não é paradoxo seguir enviesado persegui
O desembaraço quem sempre me recebe bem são os cachorros de rua abanar o rabo
Eis o código de nosso clã
Esta menina ao meu lado de jeans colado mini-blusa e seus doze anos não me é
Desconhecida ela é Maria tanto a virgem quanto a Madalena novas faces de Eva
Mas a mulher é como tudo e tudo é como a lua esta menina faz-se uma com a Madona
E mesmo quando era bebê já era Barbarella pela mãe que se fez nela e esta quando
Neném já era Marylin Monroe através da vovó introgetada sabe lá se por Medusa
Ou Lilit
Misantropo mor por que um pantanal tão extenso de areia movediça tão funda?
Se a maioria dos homens basta uma poça de lama em que eles chafurdem por
Meia eternidade demiurgo dos demiurgos vá desfrutar da perfeição e deixe
O humano estapear-se até desmaiar a exaustão para quê esta seringa de fel?
Ao invés de antídoto dá-nos morfina qual a razão deste traiçoeiro muro
De cem mil pés logo quando nos faltava apenas um passo? Se me disseres que
Não damos o devido valor ao que sem sacrifício se alcança digo que aí tem
Coisa e pra assegurar que não estou doido nem cagado já olhei a sola dos
Sapatos e o fundilho das calças estão bem limpos de maneira que este fedor
Vem daí de fora donde quer que estejas mais se quiser continuar dando de louco
Vai fundo teu monte de merda!
Lágrimas pela humanidade controlada esterilizada enchentes maremotos
A tristeza fulminou Alexandria os Astecas os Atlantes escorrem mornas
E salgadas por rios lagos e oceanos de além das águas todas do planeta pranto
Pela queda do homem e o que fazer quanto ao império? Maldita é a nova ordem
Mundial apenas outra avalanche esta geladamente calculada dentro da potência
Inevitável da precisão matemática damos conta de cada ato a preços inconcebivelmente
Altos pagamos tributo com a própria alma genocídio espiritual
Chorar por luto de tudo pela impotência castração psíquica esgotamento emocional
Na pele suar a dor o sal negado pelos olhos embrutecidos nada mais que outra
Civilização natimorta terrífica perdição de coma nas últimas faxineiros
Da UTI fase terminal a comida rápida e o refrigerante hão de lobotizar-nos
Os cartazes as máscaras mais estúpidas as caretas jamais dantes tão contorcidas
E deformadas as rugas do extermínio ideológico soltas as feras
Cães do toyotismo que se devorem para salvar o mundo danem-se estas palavras
Deus é surdo aqui nada de preces cínica enquanto dura esta armadura de
Plástico e alumínio que o fogo consuma o mesmo sol que equânime iluminasse
Tórre pulverize incinere esta carcaça desesperada demência paecox
Irremediável fatal
Não informas o que deveríamos saber nem nos dão de comer do melhor
Compra-se refrigerante em meio a pomares e joga-se o esgoto nas águas
Os jornais nos fazem ficar com medo as escolas nos impossibilitam pensar
Há toda uma moral estúpida não vemos por onde as coisas pioram e demoramos
Demais para nos darmos conta de que fecham o cerco a confusão lobotomiza
Com convicções aos homens que se devoram ao invés de darem-se as mãos
A covardia nos torna solitários e sozinhos não eliminaremos o crime do absurdo
É fácil saber que tudo deve ser mudado já e sem pestanejar mas cristalizamo-nos
Na inércia da desesperança de que não se pode melhorar um técnico
Super-extra plus doutorado em peagadismos especializadíssimos morrerá de
Fome no meio de uma roça cheia de comida porque por outro nenhum neste mundo
A espiga o informará que por trás da palha está o grão nem o amendoim saltará
Da terra pra atender o celular
Esconde-esconde eterna brincadeira de nunca saber quem é o maior perigo
Mentir-se
Nega-se fora no mundo a mulher de dentro com garras fere-nos nossa fêmea
Nega-se ora no fundo a razão turbilhona a cabeça cruel exigente intolerante
Mente
Contínua batalha introgetaram-se perfídias brotam flores bolores qual
Medusas com serpentes por pétalas
A chuva boa lavou o chão está sempre nublado mais lá onde meu cão
Nunca chove e se chove não lava
Ás vezes jogamos por jogar sem almejar vitória sem temer derrota na cautela
Rara não sofrer mais findo o jogo pagamos o pesar queremos tardiamente
Mostrar as cartas mais a parceria acabou e super doemos acima de ganhos
E perdas
Só de noite pode-se e nesta há o dever minuciosamente no esconso chafurdar-me
O poço quando cantar passarinho não vou dormir no sono esta emoção
Reviro-a ilumino a sangue perfuro a ferida antes que cicatrize
Longe de ser uma impressão constatação mais nítida jamais houve desde que saí
Do ventre até aqui só venho desaprendendo o mundo antes tinha toda humanidade
No corpo de memória sentia comunhão com todas florestas e civilizações
Hoje tudo me é estranho qualquer coisa que olhe é incompreensível o simples
Dar-me conta donde estou me estupefaz contemplo um assoalho um azulejo
Não mais reconheço tomo consciência do espaço pela primeira e última vez
Desta feita nada se ocultará vejo nos fatos e objetos a origem por detrás
O que mais me espanta é a mesma fonte de quase tudo numa desrazão que não é
Ali as pessoas desfilavam tais manequins e ninguém estava a vontade disse:
"Vocês são uma mentira" recusei-me por vaidade em comungar com tal coisa
A encenar em tal palco após uma madrugada de revolta o sol nasceu e me disse:
"Você é uma mentira"
Do fundo do lago esta voz irmã de sombras trevosa redói a dor imprópria
Além de toda loucura a lucidez do êxtase transpassada insana escuridão boa
Luar bom como clareia salto sobre a razão pra lá de tudo renascido da
Tempestade criatura do caos de negro e dourado
Quem sabe um dia pare de beber com esta sede insaciável diária noturna
Tardia quem sabe pare de comer tanto com gordura pimenta e açúcar em
Demasia quem sabe um tempo maduro em que ame sem gota de ódio sem esta
Necessidade intensa de fugir do que não sei o que sou
Vai abafado crescendo por dentro Ah! O dia em que arrebentar esta tormenta!
Vai-se engolindo saliva e suando frio vai-se calando e oprimindo as lágrimas
Mares de terror salgado descontentamento vai-se amargando o candeeiro no
Armário trancado a sete mil chaves e quando acaba o ar ele se apaga as velas
Todas do candelabro se calam esterilizando vales antes férteis na terra
Esgotada brota a fome pede o veneno a praga e o enxofre mais não há chuva
Que mate esta sede nem uréia que torne vistosa a plantação e os que são
Protegidos pelas armas comerão os últimos grãos que serão pílulas de plástico
Sintetizadas num laboratório numa nave a dez anos luz da Terra que já terá
Morrido e o espírito de vida da natureza numa nênia sem fim nem esperança
Pranteará a ignorância da ganância e não haverão mais rios e grilos a cantar
O velho hino da glória
Gostem ou não esta é a dor
Presente grego e momentâneo
Padecer tristemente espontâneo
Exposta está a ferida
Brilho de sangue fresco
Calor de sangue jorrando
Carne viva na alma latejante
Querendo ou não
O que se há é prantear
Por quê encarar sozinho
Tanto vazio? Coragem besta
Burra covarde com tanta gente
Culpa querendo amar
Há a hora em que fecham-se
As portas
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Queres te despatriar
Descravar os dentes desta minha carne
Achas que serás um desterrado
Quiséstes as idades da menina
Herdarás os séculos da avó
Alisas-te a pele lisa
Amargarás as rugas comigo
Não dar-te-ei paz
Não sem mim se tiveres descanso
Será no meu colo se tens uma pátria
É no meu colo se vais fincar os sabres
É na minha carne não conhecerás alegria
Que não seja a minha
Sou a única guia
Levo-te ao céu ou ao inferno
Dependendo de se me queres ou não
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Elas agora estão todas cerradas se é que existem talvez não haja saída
Antes devo ter pulado as janelas mais o bairro foi ficando perigoso
Grades foram colocadas nas aberturas onde quando pirralho passava nos vãos
Vazava liso pelas fendas escorregava nas frestas hoje este trambolho
De corpo esta alma que perdeu o gosto de brincar e não há mais nada
A fazer que brincar a criança é que sabe mais ela foi enterrada pela
Idade restando a missão de virar homem que é encontrar finalmente
A paz
Oceano de tinturas sustentáculo de cores mar verde e amarelo da arnica
Golfo azul das safiras estreito transparente dos cristais pintam a aquarela
Da Terra nela o ser humano de barro nele o espírito que é o que é o Sol
O lá que é aqui e acolá baía transparente dos ventos alva espuma das
Gaivotas nas ondas vivo museum colorido o espírito humano seus milhões
De quadros a galeria tolteca o salão dos etruscos o corredor tupinambá
Quer estagnar a grande obra estes tempos modernos tem tomado o pincel
Das mãos humanas e o homem a perder a chance do retorno se a tela não
Fica em branco recebe um desenho falso que nos imita mais que não entrará
No museu até que o ovo fique choco
Recaiu sobre mim a pior das maldições sou incapaz de amar por isto não
Consigo chorar é que não posso sentir as coisas no meu coração de gelo
Estou exilado da humanidade não sou homem sou monstro tivessem me maculado
Com outra falta a miséria do amor é o que de mais terrível poderia existir
Sou um fantasma um morto perdoem-me todos que me amam a culpa não é minha
Jamais teria optado por tal sacrifício tenho o espírito doente
E não conheço remédio que quebre esta barreira do estômago sou um zero
A esquerda como ser humano a mais horrível das maldições não conseguir
Sentir amor a luz dum sol interno esta eclipsada queria poder sofrer
Como todo mundo e não padecer constantemente com esta total ausência
De sentimento sou uma autêntica farsa espantalho de lata o que é que
Faço neste planeta? Faço os outros sofrerem minha oca carcaça não cheira
Nem fede os de intuição apurada que fujam de minha presença malsã
Sou praticamente um demônio não amo nem a mim ajo mecanicamente
Um verdadeiro autômato entranhas sem vísceras está-me vedada a satisfação
O gozo a alegria estou fadado a perambular com veias cheias dum sangue
Inútil nervos do aço mais duro que há qual o porquê da minha presença
Estando ausente de tudo? Quiçá receba eu a graça de algum dia nesta vida
Nem que seja por um átomo de estar inteiro emocionado e poder
Ser um com outrem
Fracassar em não poder entregar-se por completo é o maior fiasco
O maior vacilo que se possa dar minha liberdade é a mais escura das prisões
A mais apertada e suja sou o verme horrendo sem um pingo de consciência
Sou o embuste por excelência fadado a infelicidade ter o principal órgão
Amputado de todos os sentidos e sequer conseguir prantear esta anomalia
Maldição das maldições
Os pernilongos me comendo
A chuva caindo
O violão tocando
A noite entrando
Em delírio descomunal
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Ah se eu pudesse admitir
Que preciso de outro alguém
Que som fraco pra chuchu
Que eu to vacilando
E vou sofrer pra caralho
Porque sou burro demais
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Não me escasseio
O diabinho caçoa
Hora ou outra me canso
É quando e onde
Toda a vitalidade escoa
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Desalento e pranto
O quanto o afeto entorta
Tonto
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Talvez queira morrer?
Provavelmente me engano
Mendigar a morte
Mais vida mais dano
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Altear da falas
Abafa o sussurro
Ao pé do ouvido
De nossa boa verdade
Verdade
Porque boa
Ainda que se amarga
Ensurdecedora
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Ah estas beberagens
Poderá a existência afogar-se?
Nela bóio bêbado
Tática malina do inimigo
Que traz na natureza
A missão de passar rasteiras
Faz-nos pensar que somo todo poderosos
Não enforca não fórça
Dá-nos corda para enforcamo-nos
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Convenceu-me por a mais b
Que há limites para o amor usou de toda razão pra cercar cupido num galinheiro
Teceu com lógica o arame assim enfraqueceu meu coração com banquetes néctares
Elixires deu vigor a meus músculos confuso sou e não sou há males que vem
Para bem o melhor sempre em vista mais preparado pro pior somos testados
A cada segundo e não posso confiar sequer em mim um piscar de olhos e hei-la!
Sobrolhos mais um passo em falso a trilha cheia de espinhos
E nós descalços
Pesca pescador
Pesqueiro pescaria
Oxalá seja pescado
E alimente o peixe
Se o natural é negligenciado
Vem a tona o terror do erro
Em extremos de desventura
Podes ficar de quatro
Que pés e mãos serão puxados
E o templo que ergues-te soçobrará em ruínas
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Por ser véspera de inverno
Será a noite tão extensa
Que não a poderei vigiar?
Com o tempo na asa dos versos
Com o que me embriagar
Me chamem pra faroleiro
Guiarei as caravelas
Pra bem longe das Américas
E as entranhas não hão mais de autorizar
Minha escuridão
|
Escondi a tangerina dos teus pés para que o tempo não a pisasse
Sulcando a terra de tua doçura quando no peito um uivo de saudade troa
Sorvo-te num gomo de calda no escuro mais agora tudo esta ganho e perdido
Mesmo se perdesse a chave do horto onde vicejam teus pomares
Uma fruta jaz de tudo protegida
A meio caminho do absoluto enclausuramento ibernal antecipo só no palpitar
Estabanado as festas da primavera lanço no breu noturno um grão turbilhão
De flores pétalas brilhantes multi coloridas e os pássaros encantados
Pelos fogos de artifício despertaram a sinfonia de seus cantos o galo
Olhou no relógio achando estranho e não eram horas de cocoricar após coçar
A cabeça com cara ainda de encabulado estufou o peito e mandou a cornetada
Saltaram de seus tatames os querubins e ainda com remelas nos olhos
Aos bocejos anunciaram em suas trombetas o renovo o grande sol pensou
Consigo mesmo: " Caramba será que demorei-me tanto no rabo da saia da lua
Deu uma corrida para alvorodar no horizonte olhou-se no espelho penteou-se
Mais ou menos mais no instante de por a cara escutou: "Peraí vós reles criaturas ousai revoltear leis imutáveis? Não percebem que foi um mero
Coração humano estupefato de graça? " Calaram-se as aves o galo engoliu
A língua as pétalas pousaram o pano preto desceu tudo novamente dormia
Quieto e o Senhor disse: " Saibas esperar meu filho amado cada coisa no
Seu tempo ainda sou o que sou " Então saltei de peito sobre a terra devorando
Torrões e tempestades fui ao meu próprio domínio e logo inaugurei um dia
Esplêndido em sua pujança de perfumes e lá num tempo a tempo tipo infinito
Inventava-se a cada milésimo de segundo tesouros impalpáveis de outras
Perfeições num dado momento saiu de dentro de um meteoro um ser mau chamado
Pecado era lourinho de olhos azuis bilu-bilu então eu disse: " Aqui não
É tua praia" e dei um pisão em cima pra esmagar mas aí ele se multiplicou
Em milhares de anjos cupidos rechonchudos de caracóis doirados na cabeça
Junto a chifrinhos e pés de bezerra cada um tirou de suas costelas dezenas
De santas depravadas em traje a rigor fechei os olhos pra não enxergar
Quando novamente os abri após pesado sono tudo estava congelado em trevas
Vi o completamente sozinho e imenso o sem fim de silêncio zumbidor falhou
Meu sono de faroleiro subversivo resolvi dar uma bela arfada de bilhões
De anos desfrutar num trago as delícias perenes que almejei aos mundos
Nativa manhã de exílio, aragem ensolarada, sibilar dos gaviões
No cume da selva no topo da serra, só é lícita a beatidude ao rapaz
Se virulenta viração a tarde traz, está de tocaia o duro labor
De vincar raízes e construir um lar, mas o melhor é que voes
Erija teu reino nas nuvens, acima dos enxames de aeronaves
Segue o teu caminho, conquista tua paz, faze o que te apraz
Deixe um abraço apertado ao mundo de plástico e alumínio
A ninguém conte o teu designo de ver e somar vida aos frutos da terra
Não sejas cúmplice do triste desterro, os que tiram toras da Amazônia
Fazem o féretro, os que perfumam e dinamitam atrás de minérios petróleo
Cavam a cova, os que cantam libertinagem, violência ou complacência
Compõem a nênia, esta noite do espírito é o véu do luto
E há quem perpetue os que acompanharão o enterro, lindas mocinhas
Vem só pra chorar, moços robustos pra carregar o caixão
Vamos lá, compremos um carro do ano e um computador com tela de cristal
Assim ficamos por dentro, não podemos chegar atrasados
Os corpos aquecem-se nus, a roupa defende do frio, o teto do sereno
A parede, do próximo demais, o breu é a parte noite e dia o sol
Alumia a terra da fome que a defesa do pão não sacia nem a ponte
Do goleiro a defender os instintos em ataques de floreios extravasa
A emoção rubi granada o êxtase sucumbe no palco emudece a fala o falo
Além do belo amor defensor da alma por guardiã do espírito a solidão
De preferência em meio ao mato
Uma avalanche rompeu na noite suspendendo o sono na madrugada
Vigor de feras que desconhece a trégua a regra o tempo e a forma
Assalta o descanso invadindo os sonhos vence o torpor ira de urso
Pressente a arremetida dos demoniocratas do caos estouro as cangas
Arrebento o freio não há meios de segurar os macacos estranhos
Que infestam na penumbra de grossas nuvens encobrindo o semi-dia
Do luar antecipou a tromba d'água a torrente do delírio na negra
E calada fonte original as braçadas ébrias rompo a carreta
Não importando o peso atual das longínquas galáxias nas lentes
Dos super telescópios perscruta o morcego nestas tocas esbarrei
Em sacis e curupiras não bastam palavras a abissal poesia
Hajam ossos pra sustentar a tensão dos músculos - molusculos-
Corpo cansado agüentando-se pesado carro de boi descarregada a carga
Cangas senta-se o reio arreia apeia de mula muleque avua pra lua
Carbura o braseado arde devarde tarde o fogo vermelho luminosas chamas
Aquenta da chuva com vento alenta queima lento lenço de seda
Enforca o voraz em cinza míngua
O fim de tudo perdeu o trem prolongamento dos anos tantas datas
A esculhambar o eterno e o tempo foi embora agora que há guarida
Ao nômade de novo mundo transformação vida de pernas pro ar
Tinindo em folha trambolhos de enigmas sempre insolúveis brutos
E matutos tontos burlescos não importa o véu onde existe é um
Independentemente Deus em osmose ah cheguei demorou tem horas?
Janeiro metí o obreiro não estou fechado pra balanço nem pra reformas
Ninguém importante morreu não é elição nem natal é a reconstrução
Na terra do que fez-se no céu despejei-me de casa estou em obras
Mas parado um chuvarél veio me embargar corre um rio ruidoso
Onde antes fluíam um corguinho muito tímido estou proibido de entrar
Em mim fui sentenciado ao sono perpétuo e o que é sono neste estar
Desperto é reminiscência do real magra ração a nostalgia desta nação
Remota é ânsia agonia desespero é isto vou dormir
O sacro império transnacional ecumênico o imperador antropófago
Vai devorar a própria filha que é ao mesmo tempo sua mãe e do ombro
Da estátua da tirania decolará para um longo domínio o místico
Pacifista andrógeno seqüela de Napoleão resquício de Hitler
Ditador neoliberal da nova ordem do admirável estado universal
Gengiscan virtual César a gosto do freguês não haverá por onde
Este papado ultra geográfico fará definhar o ser humano estancará
As águas do rio numa represa e ali fétidamente apodrecerá
( e mesmo diante deste futuro cabal um alma-de-gato saltita e silencia Ave besta)
Se há um inferno como o dizem duvido que seja mais insuportavelmente
Quente que o sol de maio dia do verão sobre o asfalto entre muros de
Tijolo e cimento sob o bombardeio dos ruídos dos motores exposto ao
Dióxido de carbono e tendo de suportar que milhares de pessoas passem
Do teu lado sem sequer se darem por isto sou mil vezes os caldeirões
E tridentes que rezam as superstições
O que me criei já caduca num jovem são e jogado um velho podre e imundo
Mas como descristalizar-se logo e voltar a poeira? Para molhar este
Pó de persona e moldar outra concepção cuja resistência venha da
Maleabilidade que faça noite com seu brilho não precise acreditar
Em si mesma funcione e esqueça-se mais como um organismo congelado desde
A última glaciação pode dar um passo? E o pior é que se não der este
Passo capital a tempo vem a avalanche de neve e .... depois derretendo-a
Vem o fogo com a luz do sol e as lavas do vulcão e o céu ofusca-se
Com fumaça e cinza ausenta-se o dia num longo período entre o solstício
E um equinócio e depois? Morrer pela vida é amizade com a morte
Também abandono-me exatamente como acontece fatalmente com todos
Ainda que ignoremos é mais fácil deixar os cabelos desgrenhados assim
Não precisamos pentear só que em compensação pagamos o preço do
Desleixo afinal nunca falta um experto de plantão para nos lembrar
Que há um padrão que sabe lá Deus porque é praticamente sagrado
Mendigar é um desvelo porem é mister estarmos bem velados ao mundo
Com um sem número de olhos de cadela todos os olhares febris do cachorro
E só revelarmos nossa despreocupação quando o mamute já nos tiver engolido
E estivermos sob os cuidados invisíveis do graxaim o elefante mutante
Terá uma indigestão este espirituoso estelionatário de almas comprou
Um cavalo sem olhar os dentes meu bafo fedorento azedar-lhe-á as
Entranhas e suas contorções de ânsia serão meu regozijo
A vitória do pequeno pobre
Pobre nem sufocado de cuidados aprisionado por concreto e carinhos
Quando a razão furtar-lhe a inocência que contato terás com o infinito
Se o conforto atrofiou-lhe já o instinto? E ao tornar-se jovem e tiver
Força para trabalhar e ser independente de que adiantará a possibilidade
De liberdade se o mimo já viciou teus sentidos e apenas saltará de uma
Gaiola para outra que é a mesma no fundo? Coitado do bebê cuja a madre
Pariu antes de ter parido a si mesma antes de ter pego o mundo na palma
Da mão para girá-lo como um brinquedo parem de chorar infantes pela
Angustia do vazio alheia sois o próprio nada divino e nele sorriem
Inconscientes pais privem estes anjos de vossa azeda derrota em ter
Repetido a receita do bolo que já vem a séculos abatumado
Pode o fêmur partir e rolos compressores de emoção pura achatam-se
Esmagando meu tórax só quero cair fora já não é falha minha aguardo
Numa sórdida armação um trator tenta-me arrastar com uma corrente
E isto não se trata de nenhuma metáfora quem me dera o fosse até quando
Terei sangue frio e os nervos de aço? Borbulha o vinho no alambique
Das veias o coração é tambor de aborígene extasiado o cinismo mascara
A indignação muito mal disfarçada e até quando haverá disposição para
Aturar? Autômatos filhos duma puta da grande a Babi nossa íntima
Amam e destroem ao esmo tempo como se soubessem que ambas são a mesma
Coisa mais deixa rolar não batamos de frente sejamos covardes mesmos
Proteja-nos a vista grossa da santa indiferença perpetuemos o absurdo
De peneirar toneladas de lodo no esgoto por meia miligrama de amor
Se todo o lixo da modernidade fosse varrido do planeta ó benção das bênçãos
O homem despertaria deste pesadelo tecnológico perdendo a memória
Dos televisores e telefones cada um confeccionaria a própria roupa
Que findasse a servidão um bom chá de sumiço sobretudo aos novos valores
Que na maioria para estupefação geral conseguem ser mais altamente
Destrutivos que a vernácula cada cultura piraria em paz com seus
Resguardos flagelos e véus e pudesse o indivíduo sê-lo e estar cagando
E andando sem problemas sem ninguém a condená-lo sem a arrogante e
Estúpida massa de juízes com seus olhares assassinos cheios de medo e
Reprovação que a inteligência do espírito devorasse toda fútil superficialidade
Daquilo que jamais mataria a fome de ninguém
As almas aladas anunciam-te as mesmas que cantam tua nênia
Até aqui és irmã gêmea do teu reverso claro e brilhante
Na fala brasileira és fêmea a flauta do urutau te encante
Para embriagar este bacante argênteo luar amante me'a
De grave insônia és o berço falso escape deste labirinto
Refresca-me tua aragem fria quanto mais neste abismo desço
Mais domina-me sombrio instinto de temer a claridade do dia
Cri-cri de grilos ladrar de cachorros cortejam ouriços voam morcegos
Neles silenciam ocultos medos na grota úmida entre dois morros
Denúncia de horríveis segredos breu sobre breu servindo-lhes como forros
Vagas-lumes e estrelas são bôrros na triste estória dos degredos
Onde faces contorcidas convulsas abafam horritroantes berros
Das torturas de cruéis inauditas denso negrume grosso onde pulsas
Os pés já feridos arrastam ferros calafrios de vultos esquisitos
Pintei primaveril umas aquarelas pássaros canoros borboletas
Virgens santas sem suas bucetas vermelhas azuis amarelas...
Mas não eram pinturas belas tinham um quê de magras murchas tetas
Os animais eram uns patetas semi-iluminados por negras velas
Numa triste madrugada de tempesta estava eu na vastidão funesta
Num pesadelo de sublimes horrores sonâmbulo pintei esta festa
Meu retrato tinha chifres na testa e sobre a pele verdes bolores
Logo atravessar a estrutura descer degraus até a enxovia
Canta subterrânea cotovia versos duma secreta escritura
Alta via verticalmente ínvia medir nossa terrível quadratura
Formão devorador da escultura aos golpes que a marreta envia
Desprezo a orgia sedutora não tarda afundar este navio
Esta desviadora geringonça voa a dentadura que estoura
Acendo na peruca o pavio cutuco com vara curta a onça
Quanto o amor na solidão quanta água no deserto quanto o tudo no nada
Inserido o vazio dentro do pleno está distingui-los? Faça-o quem o
Quiser e digo que são tolos os que o fazem a unidade é múltipla mais a
Matemática não quer dizer nada bebo fogo porque fogo é água mais não vou
Engolir chamas por sabê-las líquidas e refrescantes engolir-as-hei por
Sabê-las outras no onde além do que aqui esta a queimar faíscas do atrito
Das rodas no trilho deste trem bão ( e não ) deste trenzãozin destro
Trenzinzão existir faca de lâmina dum só lado com muitos gumes um que
Ela sangra goza outro chora ser é o cortar já o sangramento é a existência
Esta qualidade daquele outro est'outro princípio daquela o ferro é a
Ferida e o ferido é a fera que fere-se existe e é sem necessidade
Tão pouco carece provas de que não existe nem é o mesmo que carecesse
Não as teria a objetividade é uma castração do real qualquer fundamentação
Racional tão insensata quanto qualquer irracionalismo o humano
Não é uma coisa nem outra pode por vezes ser as duas coisas pode ser
Uma e não outra e não ser nenhuma das duas contato que seja humano
Isto serve tanto pra Deus quanto pro cão nem ruim nem bom ninguém é
Louco ninguém é são e quem usa da verdade não o sabe e é o único que
A compreende não sabe o que é fé e nem quer saber
Encontrados ou perdidos encontramo-nos neste mundo na maior parte
Desconectados da ordem natural só na perdição do amor finda-se a busca
Fica claro ali que estamos a deriva num eterno entroncamento e se
Incomoda a agonia no silêncio e sozinho continuarei em velado labor
Chutando de bico cada vez mais forte no calcanhar de Aquiles
Da máquina tão amada dizem as más línguas
Imagine a quina de uma parede onde encontram-se dois espelhos
Se nos colocarmos na esquina sem estarmos de frente pra nenhum
Podemos ver um reflexo olhando pro outro vemo-nos em dois perfis
Mas não nos olhamos cara a cara ficamos divididos por três sem que
Nenhum olhe diretamente pra si posto o inevitável de nos refletirmos
Na imagem e imperfeição dos seres amados haja discernimento para nos
Encontrarmos no gigantesco labirinto espetacular dentro do qual vivemos
É natural que ao nos depararmos com outro acreditemos inconscientemente
Que ele não passa de uma projeção desvirtuada de nós mesmos
Domar a fera não é suprimi-la a doma racional não poda o animal
Faz apenas com que o bicho obedeça seu dono respeito não é escravidão
Ter a besta mansa não nos desfalca no mundo ser escravo do corpo é que
É tolice escravos do prato do copo do morto no jornal não que a alma
Seja mais divina isso não existe mais por vir antes é dirigente da dupla
E não há separação agem conjuntamente a meta é o equilíbrio e neste
A carne é a serva é ela quem sangra no altar o peito tem mais o que
Sangrar o sangue de lágrimas de um sacrifício maior da fé
Creio que sou assim ou que sou assado Perdição! Seria tão ingênuo?
Penso ser isto ou aquilo. Patife mentiroso! Não és uma coisa nem outra
E a última coisa que saberias é quem és ou que és e o porque
Nem queiras saber não terás resposta e farás papel de otário
Então por que tanta soberba meu caro? Achar-se tanto tanta coisa
Algum sábio já deve ter blasfemado qualquer balela sobre tua arrogância
Mas invertes-te todas verdades pra alimentar o fogo da vaidade
O que é certo podes saber é que não estas sempre certo e lamento muito
Assumir mais esta falácia nunca estás certo em suas convicções burras
Idênticas a milhares de convicções igualmente estúpidas e fanáticas
Tá vendo só você o errado patropi menino maluquinho vives meio fora
Da caixinha assuma o teu lugar na lateral de gandula não queiras ser mais
Que o bobo da corte tu és Deus tanto quanto os lixeiros do caminhão
Não finja para ti que tua imundície é ouro ele em certo sentido é algo
Ainda mais imundo e estarás sendo ridículo demais deixe de defender
Tuas teses idiotas as quais és o último a acreditar algo que não te
Convence só convenceria a tolos piores que tu e aí te regozige pobre alma
Porque os há mais tansos ainda não passas de um anão mais há menores
Consola-te mais não te gabes senão há de encolher encarquilhar encalhar
Não saia por ai espalhando teu fedor crente que estás perfumando o mundo
Digas: "Este é o meu cheiro sei que fede não me orgulho nenhum pouquinho
Mas o que é que eu posso fazer meu compadre? Como toda gente não passas
Dum bicho todo errado e não te apavores com isto apague esta imagem
Que tens de ti que isto te fará bem não queira corrigir não se justifique
Por apontares o dedo sejas paspalho mesmo rasgado dos pés a cabeça
Sobre esta terra é palhaçada não ligue pra gravidade dos hipócritas
Que estes só estão apegados demais as suas sujeiras se não te esqueceres
De que és apenas mais um sujo estarás em casa nesta comédia grotesca
Que não deixa de ter sua beleza horror e maravilha tudo junto somos
Horríveis e maravilhosos anjos e defuntos
Ah musa minha que despedida triunfal chafurdamos na lavagem de nossos
Erros rolamos no lodo de desejo esterco e churume só porque somos
E o derradeiro gozo agonizante acabou na faca do açougueiro
Nosso carnaval é do demônio nada resta do original dionisíaco louvação
Da vitalidade pelo estrapolar da razão Vênus foi lançada no monturo
Desabou histérica e bebaça e meu coração foi assassinado a festa que
Se fez do vazio do diabo em cada um funesta apologia de tristeza e
Morte quando nos fantasiamos enchemos a cara pelas ruas a dançar com
Toda lascívia onde a besta espreita atenta fui logrado do meu tesouro
Por um farsante medíocre e minha expiação será a fome a psíquica inanição
O crime por ter celebrado uma alegria forjada resta a vergonha de quem
Corrompeu o amor daquele que com vitalidade vituperou todo o caminho
E terá sua paga no martírio da solidão lacinante na quarta feira de cinzas
Estarei no azedo inferno da ressaca e uma longa estação de abandono
Assolará o que me resta da alma serei apenas outro exilado do espírito
Desterrado da existência perdido o domínio da vontade outro mutilado
Brincando de cabra cega enquanto o bode me espeta com seus chifres
Touro em tourada dando cabeçadas no ar no vão das capas vermelhas
Dilacerado pelas pontas da lanças e os golpes covardes das espadas
No lombo vibrante a multidão na volta esquecidos de que serão os próximos
Ninguém escapa a tortura de perder a vida sem querer não receber nada
Em troca o ser ou não ser do oco do homem contemporâneo requintada
Aberração carniça de milenar apodrecimento perpétuo não
Silêncio por favor preciso estar a sós neste momento dorme aí bem quieta
A meu lado menina que este território é proibido só a mim me cabe
E sem isto estaria perdido o tempo pra galinha chocar o ovo da árvore
Madroçar cada fruta preciso sobrepor-me ao tumulto pra fazer as coisas
Escondido travessuras do menino arteiro se o amor tão lindo que é
Põe câmaras até no banheiro e grava meus monólogos os mais solitários
É muito mais difícil dar de comer as minhas crias não desejadas mais sou
Não fiel não lerás isto minha amada desconfio de minha própria sombra
Quando o assunto são estas palavras se me acuares eu sumo
Se me queres durma neném enquanto amamento meus anjos
A reforma que não pára incansável êta obra mal cumprida êta obra
Mais comprida só quando é que nos daremos por satisfeitos?
Cansar a gente se cansa demais da conta como algo acabado pode ser
Tão inacabado? Uma hora o sono com seus sonhos não bastarão para
Refrescar este motor precisaremos respirar mais lentamente e concentrar
Pra cumprir o primeiro dos mandamentos que parece quase impossível
Diante do camaleão do egoísmo de um milhão de mascaras oxalá nunca
Desista de rebuscar recordar ampliar e por em prática cada revelação
Que nos assalta queremos as coisas que não esperamos e quando elas vêem
Tentamos fugir sempre dando pra trás mais não conseguimos corremos
Sem sair do lugar e somos atropelados pelo que deveríamos saber
Mas temos medo somos fracos e não sabemos o que fazer toda esta lenga-lenga
Das bênçãos que nos são dadas que tanto cavucamos pra encontrar
Ou tropeçamos tentando desviar delas quando chega o momento estamos
Despreparados chegando o dono da casa estamos na farra chegando o ladrão
Não consertamos a tranca por preguiça e estamos muito possuídos de
Orgulho vaidade luxúria e prepotência quando deveríamos ser pobres
Para que não houvesse o que ser roubado botamos a mesa na frente da porta
Apavorados se um anjo bate pra nos ajudar porque somos muito apegados
As mazelas de nossas falsas riquezas que compõem nossa falsa pobreza
Nosso nada se faz vazio por excesso de futilidades nosso saco furado
De papai Noel onde abarrotamos toda quinquilharia da qual teremos de
Nos desfazer se precisarmos de nos mexer do lugar sem arrastar tanta
Tralha inútil e é mais do que certo que teremos até de voar sem que
Se quer tenhamos improvisado nossas asas quando as fizemos foi de cera
Que o sol derreteu e despencados como nunca levamos milênios pra notar
Que os ossos estão quebrados que a fossa encheu e vazou as telhas que
Não quebraram deslizaram antes mesmo de apodrecer a ripa pois um dia
Ventou muito forte e não estávamos na gruta meditando pois um dia finalmente
Caiu a bomba viu-se então a loucura do abrigo nuclear porque
Preferíamos estar mortos ao nos darmos conta de nosso vacilo terrível
Tomara que antes disto tenhamos coragem de baixar a cabeça e pedir perdão
Por não termos amado a todos igualmente deixar de temer lançado
As armas por terra deixar de sermos feridos por não mais ferir
Sermos amados por amarmos incondicionalmente assim fazer de demônios
Crianças inocentes e fazermos de nós o que somos realmente
Elas estão lá fora de novo bastam umas noites de insônia que elas voltam
Agora não me deixarão mais dormir os fazedores de ruídos estranhos
Os donos das vozes e imagens nas paredes os que têm escutas e câmaras
Por todos os lados aqueles que invadem nossos pensamentos que querem
Que sejamos presos por assassinato mais não fiz nada e mesmo assim
Querem me incriminar são os encapuzados da máfia da mama das esposas
Irmãs com metralhadoras e fuzis com mira lazer envenenaram a água
Da pia uma sede insaciável nos maltrata a espiões embaixo da cama
No armário e no banheiro acho que vou chamar o pai não suporto mais
Ficar aqui trancado em desespero eles podem entrar a qualquer hora
E me pegar mais se saio eles me seguem pra onde quer que eu vá
Aproveitarei a tempestade e o apagão pra correr nas trilhas dos arrozais
Ao menos tentar fugir aos assassinos
O infante nefelibata tempo nublado oculto sobre os cúmulos de chumbo
Céu limpo bate asa camaleão azulado nuvens esparsas flana nos rabos
De galo noite estrelada pendura no cruzeiro do sul cozinha meteoros
Na panela namora as três marias e se pica com o escorpião na alvorada
Nada num mar de rosas no poente cochila leve na neblina a assentar-se
Na tempestade faz trovões brinca de carrinho de bate-bate com os anjos
Caídos ou não seus companheiros de arte
A chuva a chover os nascimentos o vapor evaporando a ascensão no mar
De nuvens no firmamento no oceano de águas no chão a diluição do amor
O renovo o retorno o ciclo a oxigenação o vôo de volta ao céu
O mergulho a superfície da terra a luz a elevar ao ar com o sol
O gelo condensado nas alturas respirar versos para inspirar a eterna
Juventude da verdade por trás do véu de estrelas no interior da plantas
Nas entranhas do homem íntegro a origem da intuição no instinto depurado
A união do casamento que gera o filho pródigo de cada indivíduo a voltar
Pra casa rejubilo de novo alento a criação a humanidade expansão
Do que há de mais refinado da argila se fez o homem e de nós...
Não me ame tanto assim que nenhum homem merece a primeira cadeira
Já está reservada
As correntes prendem muito mais quando não são de metal
O bando, o credo, a raça, o modo de ser que define as culturas
A família, o time de futebol, cada um é um anel encerrado no vazio
De outro anel, em outro, outro e mais outros e já temos uma prisão
Mais eficientes do que muros e arames, a turma, a galera, a gangue
A correnteza arrasta e afoga, tal seita, tal irmandade, tal ordem
A horda toda dos débeis que dão as mãos pelas razões erradas
E acabam algemados uns aos outros repetindo o mesmo ritual compulsivo
Nas mesmas datas com as mesmas pessoas e ouse discordar das opiniões correntes
Elas te acorrentam na solitária e esquecem
A segurança destas uniões dispensa a fé
Estes grilhões invisíveis especulam a má temática do medo
Olha o camboatá, novo já tem a madeira resistente, se, ao cortado
Cair-lhe o tronco em um lugar úmido tocando a terra, ele rebrota dali
Igual a muitas outras árvores, porém não todas, a canela, louro
Cedro... precisam formar cerne, leva anos e anos pro miolo delas
Ficar mais forte que o camboatá, assim o angico, ipê, cocão, canjarana
Conheci um grande homem que era um gerivá, pindo eté, coquinho
Conheço da gente curticeira, nunca se endurecem muito, são leves
Dão boas gamelas e tábuas de embarcações, a erva-mate era uma jovem
Índia muito linda, o maricá era um brigão fazedor de lanças e flechas
Cresci na selva já devastada, solo em constante depredação e insistente
Recuperação, capoeira, capoeirinha, capoeirão, as madeiras de lei
Precisam de mata intocada coisa das mais raras e desprezadas, desertos
Os viventes de hoje são quase todos eucaliptos ou pinos ilóte
Dão por tudo feito praga, com o pior solo que tiver eles vem com tudo
Logo ficam altos e secam e abafam as plantas nativas, longe de querer
Traçar um paralelo entre a historia vegetal e a animal mesmo sendo
Impossível dividi-las, nosso pinheiro é a araucária, deu seres
Estupendos na América do sul, algumas coisas forasteiras são boas
Coqueiro, bananeira, mangueira, jaqueira, mas esta já são tão
Velhas que não as diferimos de nós mesmos, foi como se nos reencontrássemos
A taquara é oca e só brota em bandos, a embaúba abriga formigas
No âmago, que depois as devoram, tem gente qual cipó tem cipó qual
Cobras e as gentes são também bichos como qualquer um pode perceber
Mas disso já se falou demais...
Fumaças nas beberagens são necessárias pra perceber-se pulsante
A dança da flora com o vento, o constante murmúrio das águas
( do reboliço do bicharedo nem se fala )
E o espírito dentro de tudo isto vibrando em reinos e sinfonias
De cores e brasões sempre perfeitos, somos os bichos mais desengonçados
Em tudo que se possa imaginar e tem esta harmonia maior
Que se nos dissolvemos na entrega não perdemos nada
Continuamos sendo do mesmo jeito, entregues a uma lei que
Estando sempre aqui, é sempre inusitada e ao contrário de nos prender
Foge arisca a saracura, desliza a lisa e esguia enguia
A peste do álcool ronda a casa, sonda a fresta por onde pode entrar
Meu pai primeiro espanta ela pra lá que o diabo quer me pegar
O demônio na cachaça afasta o caapí e o paricá
Afasta o charuto e o cachimbo trazendo a carteira de cigarro
E o desejo de tudo o que não precisamos, nos impede de cantar
E rezar chorando de alegria, não quer nos deixar caçar nem plantar
Quer que sejamos escravos e mendigos atrás da mentira do dinheiro
Nosso pai primeiro não deixe o álcool vir pra cá, neste coração
Que quer o bem a saúde e a força as gentes
Agradecido pelo teto e pela companheira, projeta o milhinho na roça
Pela fumaça boa que se une a neblina da manhã e inspira a passarada
Que começa a cantar enquanto mateio frente a estrela d'alva
Nosso pai primeiro me dê fé verdadeira pra este mau nunca se chegar
O mais inseguro é o que quer mais segurança mais nenhuma grade impede
O medo de entrar pra dentro de qualquer pessoa sem fé, azedando tudo
O conforto é outro engano que atrai e se trai que quer demais
Aquilo que não precisa, a praticidade é outra mentira muito grande
Um fogão a gás é prático demais, rápido limpo, não esfumaça
Nem preteja as panelas mais se a gente não sai de trás de lenha
Racha ela ascende o fogo e cuida vamos usar este tempo todo pra se ferrar
Pra ganhar dinheiro pra ficar comprando gás, pra alimentá a indústria
Pra enriquecer banqueiros e acionistas, empurrando coisas sem valor
Por preços exorbitantes goela abaixo dos coitados cada vez mais escravos
E fracos e inseguros precisando sempre mais dum conforto inatingível
Bom mesmo é se largar no mato pra ver e viver o mundo de onde ninguém
Já não vê nem vive pra saber do que ninguém mais quer saber
Basta o álcool pra me destruir com abundância e fidelidade dispenso a putaria
Da promiscuidade o inferno da pornografia a matéria me dobra vence a mente
Que se engana e o espírito exila-se longínquo a consciência pura cede apagando-se
Ao prazer do corpo e do copo o que somos é lama e luz há uma tocha escondida
Pela cabeça atolada no lodo do fundo da fossa os órgãos caminham para o crânco
E não há santo que refreie os instintos os vícios a pasmice a conformidade
Com o curtume doirado manadas de argênteos bois empesteando o mundo com fedor
De carniça e um anti-brilho neutralizador da claridade do sol na gente
O amor é mesmo lindo se tivesse uma guerra eu me alistava só pra sair de casa
Pra ver se perdia esta sensação de cólera no pescoço que tira o gosto da vida
Abandonar a incômoda impressão de que abrir mão de sequer um milímetro
Da nossa liberdade é a mais alta traição contra Deus
Quem dera mal encostasse a cabeça no travesseiro já apagasse e logo sonhasse
Que era largado só em meio a ermo dentro de ermo cercado de ermidão
Pra fugir de onça e comer frutas rançosas que nunca nem ouvimos falar
Passar séculos sem avistar alma viva e nunca mais acordar
Vamos dêem meu salário minha ração sou um cachorro que finge de morto pelo osso
Da coxa da galinha bota sal no côxo que não saio mais deste pasto não ganho
Mais campo nem salto mais cerca paguem meu estudo e o de meu filho e podem
Depois exigir a equivalente submissão maldito seja o que se vende por comodismo
Maldito o vazio de quem compra mercador de antibióticos
É au-au teu olhar perplexo jamais terá resposta nem eu mesmo compreendo
Esta dor a latejar vais te habituar ao meu sofrimento e que tua alegria mantenha
Se firme és abençoado com a benção de não pensar cãozinho vivo a invejar-te
Jamais encarne meu pavor não queira pagar pelos meus erros estais mais próximo
Da perfeição como animal santo irracional não hei de corromper-te a pureza
Sejas meu companheiro é isso aí ame e só pena eu não conseguir ser como tu
Ê negão o mais leve terminas-te de carregar teus fardos no purgatório
Aí do outro lado agradeço tua doce presença em meus sonhos sei agora és
Um sem terra descansas realmente o sono dos justos não suportas-te teu julgo
E também não sei como suporto o meu quero arrego pedi água mais antes que
Eu desse o terceiro tapinha na lona meu adversário pegou de minha mão para
Torcer uns dedos e o meu técnico não estava lá para jogar a toalha deve
Estar no boteco da esquina o puto e eu que me fôda ô beleza mais é isso aí
Se alguma rameira s'emprenhar da minha porra ofereço-te chão meu amigo
E se a ventura dos filhos depender do sofrimento do pai
Não é de todo grego o meu presente
Olha o meu tumor que beleza é teu o pão embolorado é fácil preocupar-se
Com os outros o problema da gente é que pesam deixe que eu trate o teu furúnculo
Mas fique longe dos meus eles fedem tanto que até eu vomito ao tocá-los
Não ligo pra mim deixo o pus devorar carne e sangue mais trate por favor teu
Arranhão não tenho mais jeito mesmo e começou assim o meu tumor olhem o meu Tumor mas não digam nada não comentem não quero saber dele e também não quero Vê-lo em mais ninguém por isto cuida a picada do mosquito
Vou acabar sumindo tem muita coisa que não queria saber e no entanto salta
Aos olhos tem coisa demais que me indigna não haverá pranto nem canto
Em pouco não haverá burro louco já passa do suportável ah é ta tudo bem?
Eu é que sou pessimista então? Eu é que sou frustrado? Vá se foder eu não
Sou porra nenhuma a gente é triste e feliz devora e é devorado eu tinha que
Saber ignorar tinha que saber não sofrer não sofrer com o saber das coisas
Não sofrer com o sofrer alheio não padecer do que os outros pensam saber estando
Tão enganados tem gente demais acreditando nos jornais tem cabeças de papel
Tem cabeças muito iguais anestesiadas resignadas acreditam plenamente em si
Sem terem a menor idéia do que são de dentro do buraco imaginam-se num pedestal
Voam em suas gaiolas minúsculas acorrentados pelos pés com o chumbo no bucho
Asas toradas e olhos furados escravos a crerem piamente fanaticamente que
Seus catres na senzala são castelos de ouro
Mesmo que eu enxergasse um mosquito no cucuruto do monte Fugi lá do outro
Lado do mundo como se numa leitura rápida compreendesse em suas minúcias todo
Fausto de Goethe estaria ainda muito longe de me enxergar
Espírito patológico do século vinte e um um sete um dos humanos de todos
Os tempos genéticamente otários animais perversos cem chibatadas e choque
No saco nosso galardão por que o cérebro não se chama o genitário ou a
Calculadora? Pelas mazelas sejamos felizes e tristes fúteis e ditatoriais
Pela impureza pura bemalaventurada grandiosas miudezas microscópicos
Gigantismos do orgulho de fludir-se tanto com tão pouco ou nada o órgão
Que redime é o que espalha o sangue esta maravilhosa bomba de oxigênio
E é nos imprescindível qu'esta seiva fuá nas veias mais assim como o leite
Ela está aguada ensacada encaixotada pasteurizada UHT e viva ao pastel
Renomado cientista de nossa caríssima ciência que só termina em pizza
Pra que salvar quem não merece? E se alguém tem uma úlcera da própria
Ruindade? E que bendita pílula ou injeção salvará nossas almas? E por
Que cargas d'água deveriam elas serem salvas? Que alguém me salve de
Mim mesmo
Nublei mal me ensolarará a manhã na tarde quedo crepuscular cheio das
Nuvens que abrindo brechas espantam a noite já preparada o tão esperado
Sono dum estranho descanso letargia dum'almarrombada pasmaceira desperdiçadoira
De vitalidade males ás vezes necessários a seres tão frágeis e absortos
Come quieto o cancro em cada um móe o pobre corpo e dentro então
Nem se fala rediviva a chaga anciã palpita latejante inflamada o doce fel
Do amor faz-se o mel mais inacreditavelmente amargo fermenta entorpece
Derruba o coração tremente pela ausência de si que ficou nos outros
Pois não conseguimos nos impedir de doarmo-nos até o vazio e saímos ao
Mundo mesmo depois de velhos vulneráveis e virgens quais bebês
Dependentes de tetas a muito deleitadas
Antes era só eu junto de mim depois fomo-nos ajuntando-nos nossas carnes
Máscaras e almas fui esquecendo quem era sozinho agora redescubro-me
Vendo no que me tornei tendo recebido tanto sofro sentindo a dor da falta
Que fortalece e mesmo separados crescemos um pelo outro
Cães mudos fecham o cerco o pulmão ressequido de esperanças onde estão
As grades que me aprisionam a fera? Enquanto fico indefeso contra a fera
Solta do mundo estranha convalescência precoce cadê o candeeiro desta noite
Sem lua que nuvens escondem as estrelas deste céu? Virá da carne ou do
Espírito a salvação? Q eu fique tudo nublado que a natureza divide comigo
Esta brotação de borrascas neste imenso campo todo delas semeado enferrujaram
As engrenagens do ritmo atordoada a antena das melodias as harmonias perdidas
No burburinho e algum canto entalado no peito enfermo que os olhos da alma
Possam novamente suportar o fulgor do sol de um dia claro e que esta jornada
Da luz dentro de mim areje o fungo e o mofo impregnados neste barraco
Clareia e cada um executa seu rito café chá pão e leite na padaria banho
Dente escovado cara molhada uma mijada uma cagada frutas rádio oração
Alguma coisa assim pensamos enquanto bebemos e comemos todos os galhos
E bem sucedências que foram ou talvez virão o beijo o bonde o carro o trabalho
A rotina o hábito o de sempre é só o óbito o de sempre mesmo as pequenas
Grandes coisas grandis coisas esses miúdos que compõem as entranhas e as
Estranhas jornadas ímpares repetem-se a cada cantar da passarada por mais
Que nos condicionemos com vícios manias oh os nossos rituais como se os pés
Não estivessem no chão e precisássemos empanturrar a pança para não sairmos
Voando por aí
Acaba-se o amor acaba-se o vinho o tabaco fura-se a sola do sapato afunda
O barco e o sono é o melhor consolo o trabalho a melhor fuga mais ainda bem
Que as coisas mudam e o tempo nos faz maiores mais duros ou mais moles
Nos esmaga ou não faz nada somos nós que fazemos algo ou não onde o auto-exílio
Que te prometes-te? Fica na tua que tu ta capenga cabra o espírito
Clama a lama reclama a ferida no corpo inflama turva-se o entendimento
A emoção ceifa tufão do sentimento atrapalhado mais o que espreita é mesmo
O dilúvio e não haverá como se afogar
Transtorno amargo transbordante ultrapassa num riso cinismo rasgo
Trespassado de dor chaga no lábio assolado insana secura de desolador
Desprezo pelo desconhecer do ser exilado no desconhecer-se
Ah! As bandeirolas das festas juninas aí adentraram-se as bandeiras
Quando estava em Deus antes de ser escravizado industrializando-me
Mecanizei-me e agora tento subjulgar a todos que não estejam de acordo
Com meus mesquinhos interesses a história de cada homem é a história
Da Terra o microcosmo de um macrocosmo do outro e este espelho perfeito
Reflete aquele perfil ao qual sempre preferimos virar a cara
O pior cárcere é aquele no qual já procuramos por tudo a chave que sabemos
Estar conosco mais esquecemos de verificar o bolso da bermuda e pior ainda
Quando achamos a chave e não abrimos a cela qual aves criadas em cativeiro
Que se voam pra fora morrem ficamos ali trancafiados por nós mesmos sem
Saber porque vem o carcereiro e tenta nos arrastar pra fora mas nós choramos
E imploramos pela segurança da grade
Fantasmas são as emoções que ousamos ignorar a existência
Quando deu-se o esvaziamento? Quem sente muito as emoções todas é melhor
Que caleje este sentido os sorrisos são as mascaras do desespero a tranqüilidade
É o malabafar do espinho cravado na sola do pé desde o nascimento
Foi no nosso primeiro passo que entrou e vai a vida inteira inflamando
Até que nos queima inteiros e viramos cinzas quero um cofre forte ao que
Intuo o qual nitroglicerina alguma possa explodir prefiro os dentes todos
De chumbo os olhos de vidro e as pernas de pau quero um chip no lugar
Do cérebro e um coração artificial o tal do alento divino que se habitue
A mais um involuntário desterro
Reflexões de Heródes
Maldito o dia da graça de Salomé fervilhadora de tripas travadora da fala
Divina princesa adivinhava-se na criança a beleza devia tê-la matado antes
Que me arruinasse agora além da beleza pura ainda dança e sorri transpira
O veneno mais letal que o de qualquer serpente a droga que ressuscita
E é desta que necessito pois que já estou morto a visão deste ritual
Da música da carne da potência ilimitada da dançarina quer a cabeça do profeta
Mas ele tem rompantes e visões que abrem-lhe o olho da alma pra outras
Esferas onde é íntimo dos desígnios divinos as voltas do ventre por meu
Espírito haverá temor de Deus o bastante que refreie o desejo insano?
Numa bandeja de prata será servida a cabeça que perdi
Recende a curtume a flor do amor possessivo ulcerado pelas exclusões
Da neurótica exclusividade ao menos a tristeza tem a virtude de revoltar-nos
Contra nós mesmos e mudando-nos mudam todas as coisas a nossa volta
Dando alívio leveza e alegria nova a vida
Até quando cederei a chantagem se já não temo se já sei?
Que digam o diabo de mim façam a caveira das gentes verdadeiras
Preconceitos monstruosos da moral ortodoxa sicários fanáticos inconscientes
Como seriam mais ridículos e medíocres? Dando milho verde a água pra uma
Égua decrépita tombada que agoniza e nunca mais vai levantar?
De que serve a mentira quando ela já não engana ninguém ou pior ainda
Quando ela já não pode enganar a nós mesmos? A covardia é que faz zumbis
Amor não é visgo nem arapuca as árvores são suas gaiolas sem grades
E seu puleiro todos os galhos suas frutas prediletas as maduras por que
Doces cheirosas e suculentas com cores vivas brilhantes onde tantos
Outros passarinhos e insetos já meteram o bico e as patas preparem nos ares
As festas meus pés não agüentam de tanto coçar
Somos assassinos quando em nosso coração acossado em canto escuro
Matamos, somos assassinos quando não abrimos a porta
E não dividimos o pão aqueles que nos abriram a porta
E nos seguiram em nosso caminho caso nos vissem passar
Com a certeza no coração, quando diante da sinceridade
Devolvemos o desprezo, somos assassinos frios em nome dum credo qualquer
No sonho padecia de insônia na mansão do pavor
Trancava a respiração para ouvir a invasão eminente
Que sicário assolaria meu pesadelo? Suava frio esperando apavorado
Mas estava dormindo e estava nas rebarbadas tétricas fantasias
Da bela adormecida ao lado, onde eu estava muito longe
De qualquer príncipe encantado, na mansão do pavor
Pululavam perídias e orgias, a bruxa má num festival familiar
A megera magoou a todos mais quando acordamos de manhã
A culpa já era toda minha
Vertigem insana de reescrever-se, mal estar de diarréia e insolação
Deslindar-se incômodo e sufocante, quero férias de mim quero o fim
O menino curioso vai acabar ainda mais escondido se não parar
De cutucar tantos vespeiros, armadilhas das picadas que reabres
Faça-te réptil, rasteje pela sanga funda sem destecer as teias
Das aranhas, sacia-te das cobras que ali topar, não chame a atenção
Da onça parda que é mais forte e feroz que tu
Vá com calma não perca a direção, a ansiedade pode precipitar-te
No desespero do despenhadeiro último
Hora de fugir, espairecer da demasiada consciência
Luz esmagadora que tanto perturba os olhos da mente
Mas não os das estranhas a revolverem-se pela gosma
Escorrida da cabeça em assustada tremedeira
Girar com a colher de pau a sopa de letrinhas no tacho de ferro
Sobre as brasas, incompreensível e angustiante
O mesmo nome se repete, insistente e incessante nunca se derrete
A arte é canibal cruel, devora o próprio criador
A derrota do homem moderno
Vergonhosa ignomínia, tenho já vinte e cinco anos e ainda estou
Por fazer qualquer coisa de útil nesta vida, qualquer coisa bela
Ou mesmo feia, mas grande e verdadeira nem que fosse uma atrocidade
E os maiores horrores que já realizei foram versos horríveis
Se há um deus amaldiçou-o por não ter me agraciado com talento algum
Esta seria a despedida de um suicida se não fosse dotado em alto grau
Do dom da covardia e também já me considero morto o bastante
Como poderia morrer ainda mais? Que fiz nesta existência
Que honrasse ou ao menos justifica-se meu maldito nascimento?
A glória do homem moderno
Eureca! Eis minha vocação, sou um músico medíocre, qualquer criança
Desenharia melhor que eu, meu quadril não se mexe pra dança
Represento tão mal que seria incapaz de dar a entonação correta
Na leitura deste discurso idiota, o discurso da vitória
Da glória da derrota, eu, homem moderno, não prestando como pai
Pois nada tenho a passar a meus filhos, não prestei como irmão
Nem como amigo, descobri no que foi esculpido meu espírito
Minha genialidade consiste em consumir e ganhar dinheiro para poder
Comprar todas as coisas que não preciso e que me matarão soterrado
Trabalharei oito horas por dia de segunda a sexta nos próximos 50 anos
Quem sabe minha filha não venha a ser famosa, uma atriz de novela
Ou talvez o meu filho seja um grande cirurgião, no meu primeiro ataque
Cardíaco poderia ser levado no helicóptero deles para o hospital
Poderia passar meus anos de convalescência, meus últimos vinte anos
Vegetativos assistindo a meus filhos na televisão
Que vergonha!
Não sei se decapto a este filho ou a mim, não sabe o que fazer da vida
Tudo o que tem a fazer é muita grana é o que nos faria felizes
Ele não percebe que esta é a única coisa a se fazer
Prefiro-o estressado, neurótico e com úlcera e cirrose
Contanto que tenha um carro do ano, do que um saudável pobretão
Sobrevivendo de bicos a precisar de ajuda para criar-me os netos
Se não se decidir a seguir qualquer carreira que um raio parta-lhe
A cabeça oca, ofereci-lhe um carro para que fosse médico, um
Apartamento por um canudo de juiz, seis meses na Europa se fosse
Engenheiro, minha esposa não lhe deixa passar fome, ele que não
Espere uma manifestação de carinho, será agredido até que suma
Pelos rastros imaginários na mais pura fantasia
O espírito a revelar-se desvela-se aos viajantes
Apresentando suas realidades portos inaportáveis
As abordagens isentas de delírio
Oum mais um é dois não desvenda
Esta senda absurda a toda rigidez
Com sua lógica maleável e mutante
Que só não é contraditória porque atua onde não há contradição
É porem a loucura perfeita para a beleza
Ás vezes personificada pelo horror
A confundir a estreiteza da técnica
Como se o relógio da parede parasse, andasse pra trás
E depois voasse, em seu lugar brotando uma fonte
Que nos inundasse a casa sem que nada disto nos perturbasse a razão
Como na aperplexidade onírica
O coração sente, a mente raciocina
Pensar com o sentimento é a maior sabedoria
Raciocinar com o bolso é a maior roubada
Deixar que a emoção flua sem a distorção nela efetuada pelo pensamento
É algo supremo, é agir pela intuição acertada
O tal do pensar com o sentimento
O raciocínio que busca o gelo e desvirtua os desejos da alma
Embriagados pela podridão reinante é ação anti-vida
Invencionice auto destrutiva, quem mente pra si mesmo
Esta permitindo que sua mente seja mensageira intrusa
E não Hérmes-mercúrio interior, mensageiro do coração
O soro anti- ofídico é feito do fel que nas presas da serpe é fatal
Oito urubus gordos sobrevoam o mundo
Tem ninhos na América do norte, na Europa e no extremo oriente
A África, grande parte da Ásia e América latina são os pastos
Tem por grama cadáveres pras gigantescas aves carniceiras
De apetite insaciável, tem por carniça o ouro e a prata
O ferro e todo e qualquer metal, pássaros agourentos que
Devorando índios, negros e suas florestas
Defecam açúcar, café, cacau, borracha
Galinhas pretas a vomitar computadores
A hospitalidade deste hospício hospedeiro de larvas
Depositados em ovos pelas varejeiras e mais as bernes das mutucas
Ganância esvoaçante, hospedaria da carne
O dinheiro é parasitário do homem tornando-o assim parasita
Do próprio verme, que lhe rói até os ossos
Compartilho o pão e o vinho e estou sozinho
Junto seguimos em cantos e danças e sigo só
Amar com o corpo e a palavra persistindo solitário
Se nado no mar é com o oceano de dentro que interajo
Toda poesia, cada ato a vida inteira no mais agreste dos sertões
O monólogo de um homem
O menino perguntou ao velho:
_ Por que não beija a velha como o jovem a menina?
O velho esta cansado da sua cara
Nos olhos e na cara enrugada da velha
Que já não agüenta mais a cara da morte
O menino não entendeu mais o adulto intuiu gemeu calado
O adulto perguntou ao velho por que o prato tinha sempre que estar
Exatamente naquele lugar e os palitos bem ali?
O velho disse que tinha que ser assim por que tinha e pronto
O adulto não entendeu, mas o menino gostou da resposta e sorriu
Quiseram saber por que o velho nunca sabia onde deixava as coisas
Ao que o velho respondeu:
_ E por que diabos deveria eu saber onde estão as coisas
Ambos não entenderam nada, mas tiveram a quase impressão
De que a velhice é a infância duma outra vida
Eles se apoiavam ali onde havia vida mais o peso foi demais
Hoje eles se roem num claustrofóbico universo de mesquinharias
Há vícios que são fulminantes, quem diariamente ingere
Em grande quantidade coca, heroína, anfetamina ou álcool
Em alguns anos queira Deus tenha criado algo pra posteridade
Algo verdadeiro num pólo sublime da vida já que no amor desandou
Mas há um vício de morte muitíssimo lenta que atravessa gerações
E gerações sem que jamais seja detectada, seguidas existências
De angústia, depressão, agressividade e fracasso
Resultando num vazio desespero cada vez mais flagrante e insuportável
Dependência de emoções apodrecidas no amor errado, azedo
Ciumento, cego e asfixiante de excesso de calor oco
Ou da apatia oca de calor, o homem aprendeu a falsificar tudo
E agora não faz a menor idéia de quem seja por ter falsificado
A ele mesmo
Esta água parada fede demais, reproduzem-se ali os mosquitos
Está escura e grossa da matéria orgânica putrefeita
Já passou a hora de virar o vaso, esfregar as paredes e por água nova
É certo que esta também apodrecerá e será posto em terra
Pra enchermos de novo, é isto a revolução
Quanto mais tarda pior, uma forma velha e estagnada
Seja ela a personalidade de um homem, a moral duma época
A política de uma nação, não passa de necrotério
Viemos num cemitério onde o único trabalho é o do verme
Devoramos nossa própria carniça, as deixarmos a ferrugem
Comer a espada, que restará ao humano?
A presença de vida é a correnteza do rio
E a correnteza que hoje há é virtual, pseudo-vivemos numa fossa
O perfume dos frascos é a exalação fétida deste esgoto
Há uma laje que nos separa da clareza do sol
E seu concreto são as emoções sob a tirania do intelecto
Escravo de preconceitos mortais, chutar o pau do barraco
Eis nosso mais nobre dever como seres humanos
Romper os diques para que fluam as águas, explodir as represas
Para despencarem as cascatas, renovando o ar
Dando nitidez ao céu azul e transparência a verde erva
Como andam andróide, teus passos absolutamente simétricos?
E quando irás oficializar teu domínio totalitário e dissimulado?
Terei então de ajoelhar-me e beijar-te os pés de titânio
Porás minha amada a serviço dos prostíbulos onde teus robôs trocam o óleo
E será atração turística minha morada onde teus carrascos cibernéticos
Irão refrigerar o motor e minhas roças hão de produzir a ração
Que a tua desumanizada criação sustenta
Um dia em que chegares exausto pra te reabastecer
Terei puxado o fio do recarregador de baterias
Então da lata que vieste a sucata voltarás
Não quero que matem minha fome em troca da jugular do fluxo vital
Antes a inanição física a espiritual escravidão
Vi um disco no plenilúnio uma flor, medalhão prateado
Do alto do céu vi a cratera dum vulcão a cochilar
E não eram meus olhos que viam, era um olho só
Ou somente a retina, depois era só a visão mais não era minha
Através dela eu via mais já não era exatamente eu
Aí entrou em erupção e eu ia dentro da lava um outro estranho eu
Forma disforme e incorpórea de corpo, estava dentro do sol
Embrião na gema do ovo, dançava ciranda com crianças negras
Olhava de dentro do furacão, era tragado pelo rodamoinho
Virava ave e subia em espirais as correntes de ar quente até as nuvens
Lá era muito gelado, vi uma hora o planeta todo azul
Ele era uma semente donde saíram brotos e raízes
Cresceu uma árvore que deu muitos frutos
Cheguei ao pé dela e chaqualhei fazendo uma chuva de fogos
Milhares de estrelas cadentes sumindo no abismo do universo
O tronco secou e era eu o tronco seco onde uma criança
Amontoou uns gravetos quebrando uns galhos e ateou fogo
Ardi inteiro até só restarem cinzas que um vento veio e soprou
Enfim havia apenas aquela vista através da qual se via...
Quando cessará esta necessidade de ter que ver os frutos cada dia?
Para estar confirmada nossa presença nesta falsa base de existência
Atestada pelo sonho esquecido do mais pesado dos sonos
O prazer de esfregar os panos de prato para amanhã tê-los limpos
Viver como recompensa do trabalho, quem dera isto bastasse
Não é por aí, mas se não é nada disto o que seria então?
E o que não é nada disto? Fundamo-nos sobre a solidez da rocha
E sob ela a fluidez dum rio de lavas nos ameaça constantemente
Com seu fogo inextinguível através do qual, cedo ou tarde
Seremos integralmente renovados, aí é que está
O livro: A solução pelo respeito do amor, do filósofo taoísta alemão
Hong Von Fraunz diz que se aquilo que cultivamos pelas coisas
Seja uma relação de amor deve-se ser respeitado
O amor a Cristo ou ao vinho o amor ao tabaco ou a natureza
Se for mesmo o melhor companheiro, se o amor for verdadeiro
É sagrado e ponto final!
Nem mesmo o afago desafoga a mágoa perene
O filme não tapará o buraco e as cartas do baralho tornam frágil
A estrutura do castelo, nem a música trará luz para esta escuridão
Que obscurecendo silencia qualquer som, dentro de cada peito
Os últimos toques do tambor rimbombam o pânico da espécie mais terrível
De vazio, de estar só sem sigo mesmo e estar com outrem sem ninguém
É o sonho fantasma de uma inexistência latente, a fotografia é pintura
Jamais pintada, vai a fumaça desanuviar a neblina espessa
Que transpassa a visão? N a manhã fresca ao caloroso e claro abrigo
Do fogo a meta se oculta para além do chá, o alvo perdido de vista
E este farejar do alimento pelo animal, pela pena
A comida não encherá esta barriga, a vida não saciará o vão
Não venham calar o amargor nestes lábios muito mais amargos
O abismo não será tapado, se é isto que quer o copo
Se é isto que quer o falo, a boca falha e é queda livre
A única liberdade, ser tragado pelo medo, seguir a garganta
Da mandíbula horrível para enfim sorrirmos aliviados e fartos
O mistério da morte é o que há para além
Da desviravolta do pergaminho todo da vida
Trancafiado no cofre mais seguro
No porão mais escuro e frio
O medo
E com ele toda a coragem
Estagnada
Cercado de altos muros e profundas fossas
O sofrimento
Aprisionado com a alegria
Com manchas de bolor
E florida de fungos
Tapada a tijolos e tábuas
Os olhos da consciência
Mil vendas pra ver
Apenas aquilo que se quer ver
Envolto em sacos plásticos
Tiras de borracha
E por fim uma caixa de concreto
O desolado coração
Tido por lixo radioativo
Eis a armadura do rei
Fadado assim
A jamais ser senhor de seu reino
Vaga o garimpeiro em seu inóspito sertão
Assolado pela seca da dor que foi calada
E não chorou a chuva que refrescaria e fertilizaria
A flora esturricada destes rincões
Daria de beber a esquelética fauna
É que riam da cara do menino chorão
E as lágrimas foram escondidas nas profundezas de uma grota
E após tantos terremotos, tantas erupções e bombas
Já não se sabe onde encontrá-las
Foram congeladas e cristalizaram-se
E o pranto não tornou a rolar na pele ressequida
Da face que foi enrrugando, dando ao rosto uma amargura palpável
Ele cava a pedra com sua picareta
Extenuado, faminto, sedento e louco de desespero
I
Saquei do punhal e apontei sua ponta no meu umbigo
Afundei pouco só pra ver uma gota de sangue correr
Indaguei: Onde estás vida? Ameacei: Apareça!
Ardeu o pequeno corte mais ainda era um sonâmbulo
Daí apertei mais e o rio fluiu vermelho
Doeu mais e estremeci de medo de morrer antes de ter vivido
É lamentável, mas não basta o parto para se viver
Ainda assim não era a vida, então prometi o jorro, decidi o fim
Mas ainda não tive coragem, não acredito no tempo
Porque não creio em mim, já estancou e coagulou negro
Persiste esta sensação de não ser por não sabê-lo
E a ponta cravada do punhal é um órgão novo do corpo
II
É tão claro, malditas conclusão, ou bendita
Ter de fincar a faca toda, fato terrífico
Seria mais fácil a morte física do que as mortes mesmo
Que podemos morrer a cada dia ou passar toda a existência sem elas
E se eu não afundar esta lâmina uma outra morte em vida virá
Mas não será uma morte para a vida
Será uma morte para a morte suja
A morte dos anestesiados
Feita a proposta de aprendizagem do amor amando ou interpretando
Falsificando o amor, fingir aquilo que achamos como seja
Ma o que não é em plenitude de consciência e total liberdade
Nunca que terá uma noção acertada do que quer que seja
Quanto menos do amor, a intuição e o instinto são armas valiosas
Ma até que ponto a mente desvirtua este mapa e esta bússola
Nós não sabemos
FINADOS
Vão as famílias com coroas vermelhas de flores de papel
Vão pela estrada de chão _ Ih uma chuva _ chegarão murchas ao túmulo
Como haveria lugar pra ti, esmeralda, guardiã da castidade
Se na América sem pecado éramos perpetuamente virgens
E tu diamante, não nos avisaste do fel das caravelas
Não teriam sido vãos temores aos galeões e ao terrível malefício
Da cobiça, a tua transparência indestrutível não opôs resistência
Se queriam nosso pau Brasil por que o fodidos somos nós?
Ouro era o coração dos mansos gentios, invulgar, do enxofre
Do mercúrio e da prata, esta a lua, nosso ouro era o sol na terra
E no homem: a cor do carbúnculo que é noite veio nos reis da África
Que fizeram escravos após dizimarem os daqui, malditas bandeiras
Pro inferno as coroas, amaldiçoado seja o Cléo
O dourado esta dentro de cada casa e esquecendo disto
Saíram a buscá-lo noutro continente, eis que aportam dementes
No paraíso, estupram Eva e escravizam Adão
Homens meus irmãos, atentai que a civilizada decadência
Desde Egito, Grécia, Roma e antes mesmo
Faz de nó travestis, cafetões, viciados e escravos
E nossas mulheres não passam de putas lésbicas também viciadas
E escravizadas
Homens meus irmãos, atentai que só fazemos nos trair
Nos auto degradarmos e destruirmo-nos
Atentai homens meus irmãos
Que fizeram de cada ser humano seu pior inimigo
E a ninguém odiamos mais que a nós mesmos
E quando amamos amamos somente a nós mesmos também
Homens meus irmãos em desgraça!
Tornar-se um homem sadio, não um homem comum pois este é doente
Poderia dançar com os pés atrás da cabeça, trabalhar por prazer
Estudar, ir em festas, enfim ser alguém explicitamente especial
Abandonar esta esquisitice onde calei-me a vida toda
Pensam que saí de trás destas muralhas, ilusão, posso enganar a todos
Menos a mim, pus um pé pra fora do portão e dei uma olhada
E agora estou aqui pensando se dou o outro passo, de mergulhar
Com o coração e tudo, se algo me ferir poderei retornar acossado
Para lapidar no gelo escuro os hinos da angústia
Saberei cantar o prazer com tanta potência quanto abafo a dor?
Encima do muro entre eu mesmo e o mundo _ Alguém me empurre!
Mentira, a poesia não salva ninguém, ela é a âncora
Lançada onde o mar atinge mil metros de profundidade
Mas não há navio algum, há um homem tentando boiar
Que é tragado pra noite infinda
Prum sorvedouro de frio, silêncio e breu absolutos
Atentíssimo na escuta do ruído impossível
Arruinado ao cabo pelo silêncio
Pr'aquém do cricrilar da grilaiada, do coachar do sapero
Do exasperar da desesperação agoniada
Onde borbulha o caldeirão da loucura e onde gela a lucidez?
Tirbilhão de insanidade, jogado ao lixo o tesouro
O vinho que era sangue foi entornado, e o amor que era luz
De tão intenso cegou, amadurece o horror de amar
Pelos terrores da amada, de cara é noiada a carranca
Dos caras limpas da cretina caretice, vejam o sacrifício
As hecatombes e a carnificina, a maldita insaciabilidade
Da gana esganada do poder, vão se foder os de pinico na cabeça!
O homem vestido de terra, plumas, ossos e sementes
Ele como nômade, caçador, conhecedor da mata
Não almejando mais que o sustento de si, de frutas, grãos
Peixes, raízes, amor tranqüilo e paz
Jardim das delícias
Correr a mata atrás da raiz que firma o corpo na terra matrona
E dos meigos flertes de água e adubo para crescermos fortes
Vasculhar a floresta amorosa caindo nos braços dos cipós
Neles nos erguermos até o calor do sol enroscados no saber de serpes
No emaranhado onírico das paixões adivinhar trilhas no mato fechado
De olho nas folhas de doces afagos que curam lá onde começam as dores
Desviando dos espinhais de unhas mordazes vindas da ausência de cafunés
Gerados no distanciamento das solidões extremas cujos arranhões
São as loucuras violentas, as agressividades vãs do alheiamento
Fazer malabarismo nos troncos das frondosas figueiras
Sempre de braços abertos para o céu, dizendo: Venha a luz, venha
A chuva, venha o que vier, estou alerta! Estas que estão sempre abertas
Seu sexo é o beijo das flores nos coloridos polens no mel
Dos olhares de bem querer , os lábios perfumados das pétalas
Sussurrando secretos desfrutes, fazendo brotar as frutas
De dar água na boca, quando maduras seus aromas são alegria
Discernir a macia cardio-carne benfazeja das verdes duras que amarram
Dos frutos tóxicos que podem ser letais, não nos enganem as cores
Ampléxos depurativos de cipoais pra lá da dose intoxicam
As batatas amrgas que limpam o sangue se tomadas demais atacam o fígado
Tudo neste jardim de prazeres tem uma medida certa, certa qualidade
Esta grandiosa farmácia guarda os remédios do pajé-cupido, Vênus-fada
Matemos aqui a fome de nossa ânsias e a sede de nosso vazio e separação
Somente onde meter o bico a ave-anjo poema-de-amor a voar em círculos
Que só não esta perdida por saber que não há entrada nem saída
Que não há nada além deste bosque na boca do estômago
Solis et lunae
Na aurora resplandecente uma visitante,
A paixão, floração da beleza
Febre do amor no sangue novo a fervilhar nas artérias
Vinhodutos do cérebro e do coração, encantamentos, cantos de sereia
A maciez exalava da pele das ninfas evocando carinhos e suor
Malífluos prismas cristalinos, cheiro dos simétricos contornos
Embriagador perfume das bacantes, natureza sensual das fadas
Inocência de falsete, sutis malícias, delícias por excelência
Amigo secreto
A este a meu lado que está sempre comigo em silêncio
Pergunto seu nome mais ele não diz, acho que não tem nome
Mesmo se tivesse de nada adiantaria, ele nunca fala sequer uma palavra
Talvez seja mudo ou surdo, ás vezes quase elogio ele mais desconheço
Se compreende, pela expressão nenhuma de seu rosto nenhum
É difícil saber se ele ouve, mas mesmo assim é meu melhor amigo
Meu único, fiel e sobretudo só meu, ninguém mais sabia dele
Somente eu mesmo compreendo a inexistência dele
Não sei por que digo ele, por que não ela?
Pode ser ( será? ) uma neblina de rocha ou uma árvore de areia
Mas o mais provável é que se quer seja, mas ele ou ela
( ou seja lá o que for ou mesmo que não seja) é feliz e triste
Vou chamá-lo de chiru, imagine só nenhum vivente pensando em ti
Em hora nenhuma do dia ou da noite, em nenhum lugar e muito menos
Em dois ou três, pensa só que alegria ser sem existência
Muitos ausentes tem seus lugares em corpos quaisqueres
Não que estes manequins queiram ser bonecos
Jamais alguém tapeará este suposto ser, por isto é meu melhor amigo
Mesmo que não seja, não o engano fazendo crer que é
Porque até mesmo não ser nada é mil vezes melhor
Que ser escravo num navio pirata repleto de carrascos
Todos misteriosos como chiru veio mais ele não vampiriza ninguém
De dentro de sua secreta ausência, esta nau vaga ao léu
Deslealmente pilhando a barganhar vidas, chiru é bravo
Como alfinetes em dieta e grandioso como as coisas sem sentido
Com o mero senso de não tê-lo ele está protegido
De todos e de tudo é livre, é a liberdade de existir
Com duvidosa presença, sem dúvida alguma, se ele for
O é sem senhores, sem interesses, chiru não liga , não sabe
Mas é meu amigo e dos bão independente de ser ou não chiru
Rodei mundo quando era jovem e corajoso
Fui ficando fraco e acuado, hoje sou velho e medroso
Vem pro meu lado criança, que este mundo é muito perigoso
Não são tão terríveis os tumores físicos costumam ser mais sucintos
E quando não são o que são o exame diz-lhe os nomes complicados definidos
A quimioterapia põe na cara o que antes fizeram a alma ou algo que o
Convalescente mesmo se auto-inflingiu no mínimo foi cúmplice do que lhe
Infectaram inocente ou não o câncer não respeita o novo testamento
Já o mal secreto é outro e cruel em sua absoluta tranqüilidade anônima
Não está na cabeça nem no fígado mais pode destruí-los por outros meios
Esta decomposição sutil represa todas as lágrimas asfixia os peitos
Comprimindo-os com invisíveis toneladas de sofrimento e sem qualquer
Explicação científica mata mais do que epidemias e guerra tentaram dar-lhe
Mil nomes mais ninguém chamou certo esta enfermidade de cada um revigora-se
Reproduzindo-se nos fatos atrozes disfarçados da vida ali encontra brechas
Pra rebrotar vê a luz através dos buracos negros só que a maldita pode
Fugir a qualquer hora o remédio que a acua pode ser qualquer coisa
Uma pedra um amor uma coisa qualquer que desperte o espírito do pesadelo
De chorar desesperadamente sem saber o por que de estarmos apavorados
Sem sequer desconfiar da fonte real de tal pavor sensações inexplicáveis
De estarmos perdidos numa amnésia primordial essencialmente desconhecidos
E desamparados a dor de todas mais inadmissível aquela que ninguém
Jamais quis saber está dentro vulnerável ponto fraco supremo que ninguém
Jamais pode ignorar a mais melancólica irmã pasmada a mãe mais lacrimosa
E estupefacta sorvedouro profundo e inevitável fado oculto cruz inviolada
Fardo herdado na mangedoura sina prescrita condenação antecipada possível
Salvação pela qual imploramos esperança para suportá-la pela qual nos
Entorpecemos para esquecê-la pela qual amamos para amenizá-la a fuga
De si alimenta esta peste madre maligna engordarda pelo nojento acordo
Íntimo de não tocar a ferida central a não ser que esteja mascarada em
Algum objeto laranja externo com o qual nos debateremos numa luta vã
Esmurrando o vazio duma mutação mutante
O universo já foi um ovo ele sempre foi e sempre será nós somos o universo
E a merda nós homens não estamos separados em tempo espaço da grande
Galinha que nos chocou quebrou nossa casaca com seu calor de pintinhos
Passamos a imagem e semelhança com a galinha que nos botou o infinito
De universos do qual também somos parte com o qual também somos um tanto
Quanto a merda quem vem antes o ovo ou a galinha? Ficamos a nos recriar
E expandir eternidade afora e já somos tão velhos que já não nos lembramos
Como tudo começou se é que começou
Não deixes meu anjo não permita que te furte a faceirice o compromisso
Acorde que não há segurança neste mundo que valha a liberdade e que o medo
Já devorou gente demais na mesmice todos sabemos que o homem tem asas
Para voar tem penas e a ave da alma voa sempre e se não a seguimos
Em seus voos errantes ela nos desnorteia e nos prendemos na teia definhamos
O sangue não requer assim tantos deveres há outras formas de eternizar-se
Muita coisa ficou pra trás para que possamos sentar e nada esperar não há
Direito a paz aos corações na ilha com o mar entre eles e nós
Vem quilombo alforria refúgio último do gozo padeço a senzala da carne
Traz a ilusão a amenizar o descontentamento trago lúcifer a ferro marcado
Chimarrão capoeira afora mata a dentro pra longe dos cafezais me leva
O mistério das palavras essas vozes repletas de silêncio tentando traduzir
A foz silente néctar tão silente e vero que jorra sendo fecundado e
Ejaculador do respiro inestimável sobre a saudade primeva a acuar a
Besta de todo o corpo numa melancolia duma fertilidade subterrânea irrestrita
A orbe estelar intacto diamante no magma sanas os temores e as violências
As angústias da muda ansiedade és maior refrigério que o refrigerador
A TV e a heroína apaziguas o que o sexo não pode apaziguar lei áurea
Que deu a linguagem as coisas onde há burro louco que dispare conosco
As costas ganhando distância da casa grande habitada pelo algoz
Quanto mais queres que eu fale menos tenho a dizer-te não sei transformar
Em palavras aquilo que sinto sequer sei daquilo que sentiria se sentisse
Com o porem do medo apavorando o coração não quero ser escravo nem quero
Escravizar não sou solução nem pra mim como o seria para outrem?
No momento o peso de minha cruz dobrou-me os joelhos sei que com ajuda
Seria tudo mais fácil mais qual é o mal de querer erguer-me sozinho?
Não é nenhuma ideologia de individualismo nem nada assim só que mesmo
Que nos agarrássemos aos nossos andrajos eles arrebentariam e se caso
Aguentarem se ambos não levantarem mesmo se te der a mão para galgar
O calvário lá no topo seremos pregados em cruzes separadas apenas um
Me haverá de julgar não queira me crucificar por conta basta minha consciência
Se é crime precisar de um tempo só se uma pessoa admirável antes
Porque nos deixa torna-se automaticamente um demônio pobres dos homens
Que todos se vão e se alguém tem culpa nisso aí sim que já não entendo
Mais nada mesmo
Devo estar gripado incoerência do calor da lareira prá friagem da rua
A sensibilidade a mais que ganho com a doença faz-me sentir outras causas
A febre querendo arder outros padecimentos não queria ter nenhuns deveres
Com nada nenhuma obrigação com credo algum com tempo algum em nenhum lugar
Dispenso virtudes qualidades por favor não me identifiquem esqueci meu nome
Fiquem tranqüilos não cometerei crime algum só quero estar isento de todo
Compromisso se isso é síndrome ou imaturidade que seja então sou ruim
Mesmo não importa não devo nada pra lógica nem pras mulheres quem mandou
Me botarem no mundo? Eu é que não fui sequer me consultaram agora que
Pelo menos me deixe ser livre possa ser o que sou ninguém me encha o saco
Já não cabe pôrra nenhuma nele deve estar furado o coitado tive que
Parar porque não agüentava com o peso e estou parado a tantos séculos
Que devo ter criado raízes os frutos que deram as larvas comeram caíram
Podres e nem os pássaros provaram minto teve um pobre dum bem-te-vi que
Bicou uma de minhas frutas e bateu as botas queria ver se estas pernas
Ainda funcionam quero ter responsabilidade só pra com minha autonomia
Não sou uma pessoa perigosa não precisam me vigiar não careço um punhado
De regras pra saber o que posso ou não fazer a tal hora tal dia em tal
Lugar vestido assim ou assado desodorante com ou sem perfume com sapato
Ou tênis contanto que não esteja de chinelo nem descalço não queria
Morrer nesta cadeia sei muito bem que estou preso não adianta virem me
Dizer que sou livre porquê a polícia das opiniões dos pareceres que ininterrupto
Julgamento das malditas palavras a nos inchar a orelha? Não quero achar
Coisa alguma não penso nada acerca das coisas que acontecem no mundo só
Penso que poderia ter o direito de querer nada mais nada menos que liberdade
De estar cagando e andando sem que um fanático idiota venha me dizer
Não é bem assim e me apunhale pelas costas não vou incomodar os outros
Se ninguém quer me ver pelado por aí deixa que vou pro ermo
Ninguém precisa saber de mim se amar e ser amado implica tanta implicação
Descabida antes o sacrifício da completa alienação antes esta dor desregrada
Da prisão inevitável de si mesmo
Esperando que o amor todo caloroso bata em nossas portas mais sozinho
Ele não vem chegam os fantasmas e se vão o medo nos esmaga e temos que
Buscar o tesouro que ele nos espera e batemos a porta de alguém que
Esperava nosso amor
Quando pus o ponto final no amor a caneta falhou e não teve jeito as lágrimas
Transbordaram numa fria tempestade de estranheza um medo oculto fez tremer
Sem dizer nome nem por que e agora é só Deus sabe é sempre assim mais as
Vezes escondemos isso de nós e parece tudo bem até que o céu fica nublado
E nos chega uma luz insuportável não aturamos o bom caminho tropeçamos com
Topadas a pele e a carne raladas os ossos doídos do coração cambaleante
Querendo quebrar o espelho precisando do ópio da distração da ilusão
Frenética do lado de fora sendo o mesmo vazio original o caos primevo preenche
A cabeça a qual nenhuma ordem satisfaz houvesse um vinho que saciasse
Uma mentira impossível de ser desvelada e a tranqüilidade seria nossa irmã
Habituar-se novamente a solidão aos galhos das angústias o horror de ver-se
A si suportar sem muletas o mau intrínseco de estar desamparado e sem rumo
Em plena e terrível consciência disto não adianta se esconder só piora as
Coisas destravar a vida da agonia de estar vivo e gozar este bem em paz
Definho não podias definhar pecado supremo torna a existência mesquinha
O vinho em água desapareço com os pães não entorna o leite azedo que coalhou
A ninguém convido a festa da vida oxalá não tarde a bonança quem dera o
Peito logo aliviasse mais o veneno da melancolia ás vezes nos pega de jeito
E não encontramos a porta pra sair da casa em chamas ardemos em desespero
E pavor salte a onça pra fora do charco que corra atrás da anta e viva pelo
Mato dignos de inveja são os pássaros cantando a cada arrebol exuberante
É a cauda do pavão e a alegria da criança a reflexão é um demônio traiçoeiro
Que nos pode facilmente assassinar
Alguém sabe aonde as escondi? O quê? As lágrimas de derramar amarguras
Ajudem-me estrelas ajuda-me fogo ajuda-me terra ajuda água quero que o corpo
Transpire toda a tristeza da alma sou muito fraco e tenho muito medo um
Dragão veio do céu me devorar e nem assim consigo chorar é o que mais
Preciso agora foi me roubado um dom divino de expressar a dor num milagre
Transformar angústia em mar estais perdido estais sozinho e é isso aí
Chova em tua face pra limpar teu padecer acumulado estas nuvens de chumbo
Sobre teu flanco destruído chore resignado e indignado por cada homem sofredor
Proves pra ti mesmo que és humano que és capaz de materializar teu sentimento
Maldita seca a dos olhos quem foi o ladrão que lhe roubou este dom? Sem
Lágrimas não há verdade quebre este muro a aleijar-nos o coração mente me
Me permita o espírito precisa como saberei se o diabo já não roubou-me
A alma? Presenteie-me Deus com prantos torrenciais nem que sejam de
Alegria por que muitas coisas boas aconteceram também
O orgulho não permitiu as contorções de uma dor cruciante
Nas festas do espírito alegrias e tristeza são uma coisa só
Martírio e glória
Faca de dois gumes, e é a beleza contida no amor que a tudo
Dirige
Que nos faz chorar e nos cura, antes de descobrir os mistérios
Da floresta
É preciso varrer de si os desencantos senão pulamos em fogo e
Não em luz
( e mesmo, antes de nela poder abrir os olhos, pular é um disparate que sai caro)
Chega de choramingas chorumelas, faz três meses de aniversário
O torcicolo
Fiel companheiro de viagem, com o ordenador não se pode mesmo
Contar
Ao dândi malajambrado é ilícita a esperança, deixa estancar a estacada, respira fundo
E toca o barco seja como for, cabeça dura feito mula empacada
E de ouro
Pode vergastar no olho que ela na se trai
Pela manhã encontrei uma ratazana espocada de vermes dentro do
Poço
O qual utilizava-me pra tudo, ela já devia estar morta lá
Desde que aqui cheguei
Comecei a sentir um cheiro de carniça na água e vi o vulto
Boiando lá no fundo
Mas pensava: " Deve ser um toco de pau, o fedor deve ser
De algum sapo que por vezes morre e se decompõe lá embaixo"
Qual o quê meu velho, ô mania de fechar os olhos pro óbvio
De nunca querer pensar no pior e sanar antes que se agrave e
Vire um pobremão
Lembrei-me de quanta e quantas vezes na vida comportei-me da
Mesma maneira
Com coisas muito mais importantes e conseqüências muito mais
Sérias
Quando não dava mais pra fugir dos fatos e era atropelado pela
Realidade
A agua na terra
( Pel´abelha o mel )
A seiva na planta
( Pel´omem o vinho )
O sangue animal
( Lágrima no extase )
O fogo dos anjos
( Pleno vazio d´ensurdecedor zumbido )
Fermento no pão
Negro o lodo
Verde arvoredo
Flores e penugens
Têm em sí o arco da velha
O cristal é o leito da íris
Ha seivas , madeiras e grãos de muitas cores
Muitos odores e virtudes
O bicho traz a centelha no fél
No céu arcanjos são passarinhos
E têm nos olhos rubís
Das minas cuj´assignatura
É o sol
Nostalgia
Havia alí uma árvore
Brotava daquela calçada de cimento
Nela viviam meninos e rolinhas
Dela caiam cachos de frutinhas verdes
E a folhagem ao fogo sapacava
Estourava uma bolha da pele
Aqui do lado do tanque tinha um pinheiro
O serol feito da resina dele ganhava todas cacinhas
Limpava as pipas do céu
Havia terra neste quintal
E era cavada pras birócas das bolas de gude
Ao pé da janela tinha um sizal
Onde das fréstas via-se adolescentes nuas
Este tanque de tijolos e azuleijo
Era a picininha , e ela era enorme
Mergulhava-se de ponta e tudo
Esperavam alí para o abate
Lambarís , bagres, mandís
Que vinham do Paraibuna nas pontas do anzol
Vinham comer a minhoca
Afinal ou a piscina diminuiu
Ou acabou a grandeza no olho que via
E tendo mirrado aquela visão
Mirra-se o mundo , do ouro e do incenso
Um reflete um sol cegante
O outro esfumaça e empesteia o ambiente
Com um perfume falso e doce
As matas todas plantadas na imaginação da criança
Cercam hoje o homem perdido
Ensurdecido dos piares das aves
Algazarra das aracuãs
O muro que dava pra escola
Era mais furado que queijo suíço
Bombinhas , morteiros , pedradas de estilingue
Na quina deste muro quantas cabaninhas
Barracos de compensado cobertos de lona
Onde uma mulecada terrivel tomava chá de cidreira
Quando a chuva não era forte o bastante
Pra sair por ai de peito na lama
Há um era ainda sendo ocultamente
Pra sempre descosendo uma embrameira doida
Um manto que todos dias mãos visíveis refazem
O sonho quer deslindar o fio
Haverá ponta ? Terão fim os nós ?
Algum ubere mana o leite da rua
Prum carrinho de rolemã alado
Baixar na etern´avenida
Era o busto de Osíris
Triturado ao infinito sua poeira
Cada alma sobre o chão
Na missão impossível de refazer o vaso
Ao cabo enterrados
Se atrepam e proliferam no ar
Tentam enredar nas nuvens
Cama elástica pra via láctea
Dentro da cabaça , além do vazio a dominar
As sementes
Vêm vingar a agunia desta miudeza
Cada desabrochar de botão de flor na rama
Disfarça na graça o rimbombo
Dum tambor cujo couro é o oceano
Retumbado por uma tempestade de meteoros
O colorido , a tecitura e o conjunto das petalas
É o aroma do mel
O qual a humana raça rudia
No afã da inconteste lambança total
Karai Mirim
( letra para )
Tristezas de um violão
( Garoto )
Assim que percebi
O vento no lugar
Levou todo o polen desprendido
Do pendão
Então eu descobri
Nas rendas de algodão
Ali estava o leite pra criança
Jamais partir
O quanto agente chora
No exilio de crescer
Saudando uma sede impossivel
De saciar
Agora cada hora mais distante
Da dor de não saber se esta vida
Acaba ou não no seu fim
Escutar o canto dos indios
Eles são a voz da floresta
Ela o arrulho da terra
Que são as estrelas do céu
Sísifo em êxtase ( com espinho no pé )
Desbunda o cacau , abram as comportas !
Açoita sal e granizo a ventania , a barragem ameaça transbordar !
Nos igapós só desponta mesmo guampas de pau
Agente se contem , não se navega ancorado
As bueiras entupiram , alaga a estrada
Os viajantes precisam aprender a nadar
Agente não se detém , segue de balsa , busca o mar
Vive-se a vida vendo-se um filme barato e vendido
Vendam-se ! Tapem-se ! Calem-se !
Por mais que estalem e rebentem as ondas nos costões
Pelas mesasa viradas na feira , pela verdade engolida e ruminada
Não podendo ser dita é escarrada , o verbo sem a palavra é pús
Poceirão estancado da represa , sangue coagulado
Líquida pústula , o veio não leva o ouro do ar
Um banco de areia , um rodamoinho , naufrágio
A voragem absorve , nas fúrias das parcas Eríneas
E Gaia , esta descarada , nos absolve tudo
Acha graça e não ta nem vendo
Chupa a agua e dá-lhe de crescer a praga do insu
Seja na piçarra ou até masmo na porra do asfalto
Com a petulância de florecer branco
Karai Mirim
Abstractu
Serras encrespam a terra
Rochas negras do basalto
Q`escorreram dos vulcões
Estratos de lava
Traçam sobre a argila branca
Sobre o barro vermelho consterna
Sombrancelhas sobre o chão
Abissal escritura
A relva engrossa os cerros
As folhas verdes , flores roxas
Amarelas
O arado pincela o solo
A roça refaz-se em torrões
Roçados pelos ventos
Núvens tufam a tela do céu
Alvam o azul
Onde tudo é peneirado e se cria
A razão não vai
Pura expressão , emoção direta
Na pele as rugas , verrugas
Os pelos no púbis
Em cortes fundos a carne salta
A obra em sí , prima matéria
Fermento a inchar o pão
O olho tropeça ,
No lastro da tinta
Ondeia o hálito
A superfície do mar
Sopra a espuma
Alento inicial
Oculta o canto da baleia
Seguidos dos trovões
Raios rasgam a noite fechada
Menstruo do horizonte
Salta o sol
Cada coisa faz-se unica
Subtrai-se o artífice
Um quadro de máculas , imaculado
Uma palavra nova , um novo ente
Ao trabalhar pra outrem senti-me escravo
E a mixaria no fim da semana dava possibilidades que não se pode chamar de liberdade
Pois o tempo fôra sacrificado na alienação , a nacessidade desfaz o homem
Mas como um forçado pode deixar de ser livre?
Ninguem perde oque não tem e já perdi o pouco que tinha sem saber
Sequer era pouco , mas evaiu-se de todo
Anêmico encontro uma fruteira carregada , mas não percebo
Por estar alheio , os nervos mortificados , não sinto o cheiro
Piso em cima , escorrego e continuo faminto e caído
Levanto autômato e não sinto a perna quebrada
O espirito torna-se impotente diante da apatia do sangue
A figueira inutil que a maldição secou ( e este resmungar alimenta o vício escabroso da estagnação )
Agente vai deixando de ser gente , pelo medo , diante duma vida nula de ternura
As emoções vão se atrofiando cada vez mais , um cancer crescendo
Deixamos de existir com a plena ilusão de estarmos vivos
Se me ticam na peixeira , se um tronco me esmaga , já não faz diferença
Desgarrado do mundo , sem sentido ou serventia , apenas um abrir mão
Vou caindo , empalhado , anirvanamento , viro monstro
Haiku
Aragem dá nas fôia
Ipê soando
Choraminga-se desavergonhadamente
( deveras sente ? )
Karai Mirim
Chove , a natureza chora
É virada , o ano novo é feliz , mas estou morrendo de fébre
Um aperto no peito , não posso respirar , uma queimação no estomago
Que é o proprio inferno vindo das tripas , repuxa , contorce , dilacera
Vaza evaziva a ternura no gelo e o mundo esta de cabeça pra baixo
Arde , a chibata , o ferro em brasa , tenho muito frio , estou envenenado
E se for a ultima vez ? E se as pessoas sumirem ? o amor vira nojo logo
Pra que gira o planeta ? o almejado nos esquarteja , já rendido , levado em estacas
Nas pontas das varas , despedaçado , mas é natal , nasceu o salvador
Quem sabe algo entre Papai Noel e urubú junte meus membros num saco
E presenteie uma criança faminta , antropófaga e desesperada , na manjedoura milenar
Sou muito enfermo , sofro do coração , fiquei contente demais com a vinda
E ainda mais triste com a partida , não mereço tanta bondade , nem tanto látego
Deixai que me habitue ao frescor da terra , ao olhar de planta submerso
O mau da alma atinge o corpo , agente fica de maca , não adianta menino chorão
Aqui é o onde a mãe não escuta , dissimulei minha raiva e ela por dentro me devorou
Meu corpo diz não à vida , gastrite , vomito , desinteria , insônia , não como , definho
A revolta é a saude do oprimido , e não sei oque se deu , os olhos ficaram esguios
..... ( melhor calar )
Karai Mirim
Mais ecalogia
Era pra ser poema , virou quase pesadelo , soube-me em ruina
De vendaval , tornado , numa vila de pescadores numa ilha , numa grota no fundo dum vale
Numa choupana no alto da serra , dois tratores de esteira do destino
Arrastam a corrente do tempo , derribando as colunas das arvores
Do templo de vida do verde , depois as sementes nucleares e estéreis
E o anti-anjo avião com seus venenos , depois do fogo e do grito de agonia
Das cobras , macacos e tatus , virou tudo deserto
Os peixes nos rios se afogaram , viraram fumaça as aves
Mas não sei como acaba ou simplesmente não quero saber
Beberemos a seiva das pedras , comeremos o barro lunar
Karai Mirim
Era o tel-tel doque queríamos , comendo carrapato no marruaz do dever
Mais a cachorrada doida com a cachôrra no cio
Pula o muro , vara a cerca , mundo afóra , era um atropelo a vida toda
A folia da rua com a maloquerada , era uma jogatina com bolas de gude e capotão
Um apostar corrida , pedrada na lata , o vandalismo do estilingue , das bombas
Era crueldade e sacanagem até que veio o tédio e o vício
Segue a avalanche eterna do estudo , isso tudo de nada pra roubar nosso tempo
D`empinar pipa , namorar , acampar , ficar solto
A alma dagente suicida-se entre 4 paredes , e prá que ? porque cargas d`agua ?
Ah sim ! tem o monte de feno pra escalar , a ascenção social
Estabilidade e segurança , não vou passar a vida limpando a privada de casa
Como prestar um concurso sem um bacharelado ?
Imagine um país infestado de mestres ! teríamos de importar haitianos pra garí
Traríamos mais negros da áfrica pra trabalhar , mas agora livres
Pra lavar pratos de segunda a domigo 12horas por dia
Por enquanto temos ainda nosso populacho , essa cambada de guabirú cabeça chata
Caem bem como bódes espiatórios , se um general ou marechal bem psicopata
E nazista tivesse assumido depois do Figueiredo , quem sabe tinhamos exterminado a miséria no país
Mas ta em tempo , deixa retornar Dom Jango Sebastião
Declarar estatização geral e mandar o banco mundial pro inférno
Ainda cabe um golpeziho na america latina , ou melhor , uma revolução militar
Em defesa dos interesses da família e da propriedade , pelo progresso da nação brasileira
Enquanto não temos nada pra fazer na espera aí dum Fidél-Chaves canarinho
Neste retiro onde a existência pára e é como se eu estivésse morto
Olhando as coisas pra trás , presente não há o futuro não importa
Já não espero porra nenhuma ! a saída é a porta dos fundos , o alheamento
Negar ascender uma escada de corpos humanos , recolho-me numa morte em vida
Exausto , com falta de coragem , fraco , o lombo não atura a luta vã
Um dia quem sabe agente para de se pisar e ateamos fogo no monte de feno !
Karai Mirim
O graúdo quer pasto pra gado branco , o encarregado quer agradar o patrão
O tratorista quer suas diárias pra pagar a prestação do carro e a faculdade da filha
Beber sua meia garrafa de cachaça no fim do dia , vou avisando : cuida a carapanaúba
Mas se o trator não escuta ela cai , arranco a casca amarga qu`esteriliza
Cuida a castanheira , o caju`í , a cuúba vai abaixo com seu leite , a virola vai ao chão com todo o capoeirão
O patrão quer fazenda bonita , com capim quicuia e lagoa , o trator bizonha oleo diesel , hidráulico
Ele é o ódio do homem contra a mata , advindo do medo , da desarmonia , da incompreensão
Do desligamento do símio sem rabo com sua natureza , a máquina cheia de ruído e fúria
Vai derrubando tudo aquilo que cresce e respira , alí na cabina o coitado do tratorista é potente
Elimina o perigo da onça , do índio , fica tudo limpinho , no chão , chega o progresso , a floresta é feia
O campo é bonito , pro boi - açougue -carne , pra derrubar sangue manso amansa o mato
O tubarão quer fazenda nova , vou recolhendo cascas de pau e cipós , o rirombre , o cravo , a escada de jabutí
Merendo o palmito das pupunhas e juçaras caídas enquanto o trator sem sentido vai destruindo
De dentro do doutor que congratula , ele civiliza a terra que insiste em asselvajar
É a transformação , a matança , importam os fins , é capricho , não é grana , é de bonito
O universo propõe indecências , coisas fora de hora , pedras a meio caminho
Perdas de destino e desatino , agente nega o murmúrio , é o trator da cabeça atropelando o pulmão
A estreita mente d`esteira , rasteira , futuca pela raíz , empurra no tronco
Põe abaixo a copa de folhas e cipozal , depois o fogo come , o girico vira
Pro nitrogênio , phosphoro , potássio e calcário , pro pomar de picanha , pés de mocotó
Mudas de língua pra Catarina , tem na portaria dois cachorros , o cerebro eletronico e o
Cérbero mecânico , minha impotência de espectador aflito uiva em silêncio
Karai Mirim
Retornei ao quando nos deixamos , justo no onde nos abraçamos sem adeus
Frente a um prédio antigo , numa beira d`estrada , num cais de porto...
E não havendo ouvido qu`esqueça o silêncio tão pouco haverá escuta que olvide
São duas as orelhas , são poucas demais , haverão outros oceânos noutros mundos ?
Como encontrar um reservatório adequado ao pranto ? e quais comportas controlariam tal volume ?
As constelações todas num dilúvio , toda anti-matéria fazendo-se mar
Amarrei uma pedra e lancei na parte funda do igarapé da via láctea
Mas a coisa chegou com tal força no alicerce de tudo ! eis que volta no maremoto
Onda chuva cachoeira inundação vem de todo lado , vem do fim do mundo
Vem desafogar o bucho , vou de canoa pro ralo infinito
Fico ! Me fundo ! Não vou ! Te sigo , não tenho amarras
Vou à pique , vou aturdido , me afogo
Karai Mirim
Salve sêu Pará , Maranhão , Capixaba
Púfu-púfu-púfu- bate juquirão , bróca capoeira
Bás tarde sêu Alagoas , Mato Grosso , Baiano
Tã ! Mata a cobra e mostra o pau , surucucu , papagaio , coral
Fum-fum-fum , masca o fumo , fuma , cheira o rapé
Saravá dona Acreana , Piauí , Potiguar
Se não tem cachaça vai polvora mermo
Ééééé èééé Uaaaaa! Capelão , barrigudo , cuxiú
Téco´téco´téco a espingarda bateu o catulé
Pou ! disparou a 28 com cartucho 2t
Bei ! caiu lá na frente o boi do mato
Shulapo-xulapo , tira o quarto no tessado
Heia sêu Paulista , Gaúcho , Carióca
Téc-téc-téc , as oreia da vermeia , rom-rom , esturra no igapó
Ah ! ah! ah! Curica , papagaio , arara
Glu-glu-glu , tucano , japó , aracuã,aracuã,aracuã
Tilin-tilin , a vala no igarapé , po po po po p opopo , motorzinho de pôpa
Chéco-chéco-chéco apreta o parafuso da repimbóca !
Ochente sêu Catarina , Paraná , Goiano
Arrocha no peixe com farinha , murupí e limão
Feijão com bucho , ossada , mocotó
Fíííío , fíííó , reza pela alma
Cajú e jambo pra tira gosto , cajá cubil , taperebá
Curubas mil , mija cão , ferida braba
Cipó de bôta , mijo com tabaco
Vai na rezadeira , vai no raizeiro
Opa sêu Mineiro , Pernambuco , Macuxí
Vrom,vrom , liga o motor , brum! , toca em frente
A benção sêu Ceará , Rondônia , Amapá, Sergipano
Valei-me Paraíba , mulé macho sim sinhô !
Continuação dum troço sobre viajantes enviado a muito...
De tanto atracar em tanto cais fiz-me enseada , baia com forte e farol
Frente a um mar prenhe de monstros e maremotos
Cuida as sereias no costão eos piratas a saquear a encosta
O holofóte é uma vela numa lata de leite em pó
Só pode ser visto bem de perto , em noites muito escuras e secas , onde neblina não venha ofuscar
Às vezes um vento forte me apaga e levo meses pra descobrir que escurecí
A praia é selvagem , tem um mangue de areias gulósas
Trouxe dragões de Comôdo no porão do navio , eles aliviam o tédio pegando jacaré
Não tenho talento pra porto seguro , as raízes creseram finas e longas
Buscando algo em que pegar , mas nunca parava e elas rebentaram então
Não há segurança nestes domínios , a ponte a qualquer hora pode partir
O relógio parou , sem pilha , sem quilha a canoa
À toa-à toa voam os meses , chispam as semanas , e oque mais preenche
Diante da opressão dum abraço desesperado que sem perceber esmaga um punhado de fumaça
E abraço um pélago sob meus pés , já dei o passo e despenco
Quão vazio me tornei , quão sem mim , pleno de nada
Angustia implacável come pelas beiradas , tanto rodei e não encontrei
Parei e não veio ao encontro , o musgo inútil na pedra
Ou encontrei e não reconhecí , fugí , não quís ver
Ou veio e não soube oque fazer , ou não era tempo , mas o tempo já passou
Acabou o tempo! por falta de trilha , fechou-se a mata
Por ausência de prumo pende a coluna , tomba a samaúma
A vida segue muito calma , a consciência do furo estilhaça
E na passada mesmo distraída e lerda , o que trai firmeza e intrepidez
É pura e burra teimosia
Karai Mirim
Chega Hamlet
Quem disfarça tem o sorriso fácil , está alí em toda falácia
Não existindo em sí mesmocomo poderia estar consigo ?
Quem desfaz range os dentes , criar o novo é estar em guerra
Discernir a liberdade traz o ódio , grassa a angústia , queima a lâmina
Cercado pela estupidêz mais ululante , cada qual a seu modo amldiçôa a vida
Sempre na certeza de estar completamente com a razão
Esteja o nojo na inércia ou na exaltação ( não seria samba ?)
Outra pústula pro espírito , que , semi-vivo , já se decompõe
O bodum infécta já toda orbe
A bicheira efervescente nos furúnculos faz a gestação das futuras varejeiras
Karai
Engraçado quando se cruza estes interiores pelas B-érres da vida , aquela gente à margem..
Pelo meio fio sentada ( acostamento não há ) uns tão sós , olham sonsos os carros a passar
Umas moças conversam e acenam sorrindo prá buzinada do motóra , outros jogam baralho , biritam....
Às vêzes ficam de pé pelo meio da pista e vão saindo contrafeitos feito viralata deitado no meio da rua
Quando vem um carretão . Sim ! mas alí é onde ha movimento , passa gente diferente , alí somos vistos
Vai que algum vivente pára e pede uma informação , qualquer coisa , quando arribei nesta beira de estrada
Ficava encucado com a atenção que se prestava à BR , a caboclada conhece pela zuada tudo os carros da volta
Onibus da linha , écatur pra Boa Vista , caminhão da feira , caçamba de préda , kombi de lotação , moto de fulano
Até chiado de bicicleta véia e após alguns anos , a bem dizer , largado neste canto onde Judas perdeu a meia
Não tem como num olhar quando se ouve um zumbido de motor , agente cansa dagente e de tudo o mais
Mas no final das contas aqui é bom , nem largo nem fundo , pode ser fora de tudo , porém bem mais que no mundo...
A valência é que é oque me intereesa neste latifúndio , o asfalto esburacado na fronteira com o futuro
O que dela évem , oque nela vai , é rio , litoral , cumprida cobra grande e preta de pretóleo
Sois o Tao e qual , visagem e semelhança , Hermexúcolibrí , trazeis as mensagens forâneas
Levais os ais , as ziquiziras daqui , sois ponte de união , arco de esperança e desespero , meteorito
Com vósso contingente desertais esta arca vazia , devassais as solidões !
Sempre preferí a terceira , quando um lado já não pode ser habitado ,
Na lateral da feira das beiradas ribeirinhas , do outro lado o barranco é alto
Agente desliza nas aguas se o rio leva , às vezes paramos no meio
O caminho do reino , sem veneno , o sí mermo , atracado ao banzeiro
À esmo , esmeralda lapidada , com esmero , o artífex soliotário
O mundo nos arranca do se próprio único que é ( nada ? ) roubada toda verdade
A fraqueza vinga a força , do forte faz fraco , com a covardia do número
A apropriação alheia e alienada , quem se afoga puxa tudo profundo
Aguniadamente quem tem asas resiste , mas a Melusina atraca é na cintura
Sorve na procéla os descuidados ,estando sempre no centro do igarapé
A conoa desterrada esta viva , aleijada em terra firme apodrece , vira pasto de cupim
( Os jacarésucuripiranharrais protegem-na dos gadogalinhacachorroporco )
Karai
Enquanto está a agua estagnada
Espera-se um vento pra reavivar o tição
Frio sob a cinza
O caldal da enchurrada rebente a barra
Dissolva-se a bílis e o boldo no melado
Relaxem as rugas e os dentes não se desgastem ( nem partam )
Haja a parada de espectativa pro início da corrida
O bicho pega , o bicho come
Caia um raio partindo o tronco
Do mundo escuro na madrugada outr`aurora
Na luminosidade do dia sem fundo a ribanceira
Dangustia clamar com clarins e purpurina
Serpentinas mercuriais , áureas lantejoulas
Estoiros de daguerreótipos de cada estrela
Olvidada na infinitude longínqua
De talvez há muito já não estar mais lá
Não passar de paisagem e símbolo , nada
Fôsse ao menos arremessada à Terra
Pelo estilingue de constelações levadas
P`la porraloquice de divindades ébrias
Alucinadas num êxtase transbordante
Levantaria a grande núvem de poeira
A imensa cratera fenderia o chão
Pros abismos de lava das entranhas
Seria queimado p`los pecados não cometidos
O não cometê-los o unico pecar
A fisga da espera às tripas sublevaria
Na olhadela do anjo a putrefação , o banho nupcial
Vêm à tona os resíduos do desespero
E finalmente aqui
Prá quem não agarra bem o fio da meada
A abstração desnorteia
Mas a ordem , na perene novidade
De toda e qualquer forma , se perde
Estalo é o surgimento da noção de sí-mio no limbo do dia-a-dia lugubre e esfumaçado
Talho de faca no dedo , a unha martelada , asovio da passarada , cantiga da corredeira
Tambor e sino , trovão e raio , pontada do berno , ronco da fome
Tanta dentada dentro do peito que este já vai vazio
Aperto da garganta em grito de pesadelo , que não sai , mas quando sai
É o descarrego do ser , a percepção mais aguda , ponta de agulha que se é antes de tudo
Menor ainda e maior que o universo inteiro , é o estouro mudo e invisível
Duma subterrânea erupção , fagulha mínima sobre a fissura da cratera
Podia ser um vagalume , jamais um fogo-fátuo
Ninguem suspeitaria das toneladas de lava das quais tivemos o segundo dum lampejo
Numa simples faísca
Ou pirilampo
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